A primavera do volante

Uma jovem corajosa desafia a proibição de mulheres dirigirem na Arábia Saudita [br]e vai presa. Milhares de outras se juntam a ela na indignação e o protesto cresce

Mai Yamani, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2011 | 23h58

A inesperada visibilidade e assertividade das mulheres nas revoluções que estão se desenrolando no mundo árabe - na Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen, Bahrein, Síria e alhures - ajudou a impulsionar o que se tornou conhecido ora como "despertar árabe", ora como "primavera árabe". Grandes mudanças ocorreram nas mentes e nas vidas das mulheres, ajudando-as a romper as algemas do passado e a reivindicar liberdade e dignidade.

Desde janeiro de 2011, imagens de milhões de mulheres se manifestando ao lado de homens foram transmitidas para todo o mundo pela televisão, postadas no YouTube e estampadas nas primeiras páginas de jornais. Viram-se mulheres de todos os níveis marchando na esperança de um futuro melhor para elas e seus países.

O contraste entre esse espaço dinâmico de protesto aberto e a Arábia Saudita dificilmente poderia ser mais gritante. As mulheres sauditas vivem num sistema petrificado. Rostos da família real são vistos por toda parte; as faces de mulheres são cobertas.

Em nenhum outro lugar do mundo vemos a modernidade experimentada como um problema. Arranha-céus crescem do deserto, mas as mulheres ainda não têm permissão para subir com os homens nos elevadores. Tampouco têm permissão de andar nas ruas, dirigir ou sair do país sem a permissão de um guardião masculino.

Fátima, uma jovem de Meca, enviou-me um e-mail no auge da revolução egípcia: "Esqueçam os gritos por liberdade; eu não posso dar à luz sem ser acompanhada ao hospital por um mihrim (guardião masculino)". E prosseguiu: "E a mataw"a (a polícia religiosa, conhecida oficialmente como Comitê pela Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, cujo líder tem nível ministerial) recebeu o direito de nos humilhar em público".

Mas a globalização não conhece limites, nem mesmo os estabelecidos pelos guardiães da probidade islâmica. Garotas sauditas de 9 anos batem papo online desconsiderando fatwas emitidas por clérigos wahabitas que proíbem seu acesso à internet sem a supervisão de um guardião masculino.

Em 21 de maio, uma mulher corajosa chamada Manal al-Sharif quebrou o silêncio e a apatia ousando desafiar a proibição de mulheres dirigirem. Na semana seguinte, ela estava numa prisão saudita. Dois dias após sua detenção, porém, 500 mil espectadores haviam assistido ao vídeo de sua excursão no YouTube. Milhares de mulheres sauditas, frustradas e humilhadas pela proibição, prometeram fazer um "dia de dirigir" em 17 de junho (muitas dirigiram).

A Arábia Saudita é o único país do mundo que proíbe mulheres de dirigir carros. O sistema de confinamento que a proibição representa não é justificado nem pelos textos islâmicos nem pela natureza diversa da sociedade governada pelo o regime de Al-Saud e seus parceiros wahabitas . De fato, esse sistema é muito distante mesmo do restante do mundo árabe - o que se tornou gritantemente óbvio no contexto da sublevação social maciça em quase toda a região.

O sistema judicial saudita é um dos obstáculos mais formidáveis às aspirações das mulheres, baseando-se em interpretações islâmicas que protegem um patriarcado defensivo. Em outras palavras, o império da lei na Arábia Saudita é o império da misoginia - a exclusão legal abrangente das mulheres da esfera pública.

Os governantes sauditas anunciaram que protestos são haram - um pecado punível com cadeia e flagelação. Agora, alguns clérigos declararam que a condução de veículos por mulheres é haram de inspiração estrangeira, punível da mesma maneira. No entanto, apesar dessas ameaças, milhares de mulheres sauditas se juntaram ao "We are all Manal al-Sharif" (Somos todas Manal al-Sharif) no Facebook, e incontáveis outros vídeos de mulheres guiando veículos apareceram no YouTube desde sua prisão.

Como Manal, elas foram detidas, e o governo parece determinado a processá-las. Mas Wajeha al-Huwaider, Bahia al-Mansour, Rasha al-Maliki e muitas outras ativistas mesmo assim continuam insistindo em que dirigir um carro é seu direito legítimo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

MAI YAMANI É ESCRITORA E CONFERENCISTA DE POLÍTICA E SOCIEDADE, ATUANDO NO ORIENTE MÉDIO, EUA E EUROPA. É AUTORA DE CRADLE OF ISLAM (PALGRAVE USA)

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