Imagem Dias Lopes
Colunista
Dias Lopes
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A princesa e a sopa de papagaio

O imperador d. Pedro I nunca escondeu sua admiração pela tradição e cultura da França, apesar de ter vindo para o Brasil fugindo das tropas de Napoleão Bonaparte que invadiram Portugal, em 1807, quando tinha apenas 10 anos de idade, de crescer solto no Rio de Janeiro, de preferir a companhia das mulheres e dos cavalos aos estudos e aos livros. Quando precisou casar, gostaria de encontrar uma noiva nascida naquele país. Mas o pai, d. João VI, negociou sua união com uma vienense, d. Maria Leopoldina Josefa Carolina de Habsburgo, filha de Francisco I, da Áustria. Enviuvando, d. Pedro I casou uma segunda vez, porém a escolhida também não nascera na França, até porque estava difícil arrumar-lhe na Europa outra noiva de sangue azul. A notícia do comportamento violento com d. Maria Leopoldina manchou de tal modo sua reputação que nenhuma corte aceitava fornecer-lhe uma companheira. Entretanto, dessa vez chegou perto da França. Casou com d. Amélia Augusta Eugênia Napoleão de Beauharnais, duquesa de Leuchtenberg. Embora nascida em Milão, ela era neta da imperatriz Josefina, primeira mulher de Napoleão Bonaparte. Veja também:Receita de soupe au poulet et rizNada mais compreensível, portanto, que a alegria transbordante de d. Pedro I quando sua mais bonita e graciosa filha, d. Francisca de Bragança (1824-1898), que vinha a ser irmã de d. Maria II, rainha de Portugal, e de d. Pedro II, imperador do Brasil, casou a 1º de maio de 1843, no Paço de São Cristóvão do Rio de Janeiro, com Francisco Fernando Filipe de Orléans (1818-1900), príncipe de Joinville. O noivo era filho de Luis Filipe I, o "Rei Cidadão", último soberano da França, e de Maria Amélia de Bourbon-Sicília, princesa de Nápoles. Só a concretização de um sonho associado à conveniência política ou diplomática explicam o enorme dote, muito superior ao que se costumava dar, oferecido pelo sogro. Segundo o contrato de casamento, d. Francisca levou para a França, onde fixou residência, um milhão em dinheiro, a renda temporária de 6% sobre o tesouro brasileiro e 25 léguas quadradas na Província de Santa Catarina. Mais tarde, o casal cedeu a propriedade à Sociedade Colonizadora de Hamburgo, para ser povoada por imigrantes. Ali surgiu a Colônia D. Francisca, atual cidade de Joinville. Além disso, embora não fizesse parte do dote, d. Francisca possuía uma fortuna pessoal estimada em 25 mil francos e diamantes avaliados em outros 200 mil.A mudança para a França foi relatada no Diário da Viagem de d. Francisca de Bragança (Alethéia Editores, Lisboa, 2006), pela baronesa de Langsdorff, dama de companhia da princesa de Joinville e mulher do embaixador que Luís Filipe I encarregou de preparar o casamento do filho. Ela ficou encantada com a moça brasileira. O mesmo sucedeu com seu marido, que descreveu a jovem assim ao rei francês: "A princesa Francisca é alta e muito elegante; sua expressão é amável e a vivacidade de sua formosura nada fica a dever a sua dignidade. A princesa tem cabelos louros, olhos muito escuros e ligeiramente afastados e um olhar doce muito agradável. Sua fronte talvez seja proeminente em demasia, mas toda a parte inferior do rosto e da boca possui uma expressão sedutora." Estabelecida na França, ela seduziu a corte e a população do país. Todos admiravam aquela mulher alta, cujos lindos traços haviam-lhe dado no Brasil o apelido de Bela Chica, e sua divertida espontaneidade. Ao desembarcar com o marido no Porto de Brest, em 1843, provocou risadas ao pedir, porque tinha frio, um "remédio" a que se acostumara na terra natal: canja de papagaio. O príncipe de Joinville teria revelado em um jantar, anos depois, que lhe ofereceram soupe au poulet et riz, ou seja, à base de frango, arroz e servida com um molho no qual entram manteiga, farinha de trigo, gema e creme de leite. Enfim, uma preparação que, se tinha algum parentesco com a canja brasileira, era de quarto ou quinto grau.A princesa de Joinville adorava sopas. Seu sogro e sogra demonstravam o mesmo gosto. No inverno ou no verão, eram pratos obrigatórios no jantar privado da família real francesa, servido entre as 16 e 17 horas. Precediam todos os outros, com as entradas quentes ou frias. O príncipe acompanhava a mulher nessa predileção gastronômica e em muitas outras. A autora do Diário da Viagem de d. Francisca de Bragança testemunhou a grande identidade entre ambos. Divertiam-se sem parar. À noite, ao contrário da maioria dos membros da família real, frequentavam os cafés, restaurantes e teatros de Paris; pela manhã, galopavam no Bois de Boulogne. Aliás, o príncipe, excelente aquarelista, retratou muitas vezes a mulher montada a cavalo. Da mesma forma que nos contos de fada, os dois foram felizes para sempre.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.