A produção industrial cai e os preços sobem

A queda da produção industrial em abril - de 2,5%, em relação a março - provocou uma série de comentários. Industriais, por exemplo, reagiram ao custo do dinheiro, chegando a prever que o Comitê de Política Monetária (Copom) teria de deixar de elevar a taxa Selic até o fim do ano.

02 Junho 2011 | 04h03

É preciso colocar o recuo da produção industrial no seu verdadeiro contexto, pois não é apenas um fator - o custo do dinheiro - que está na origem desse acontecimento.

No primeiro trimestre a produção industrial teve um crescimento bastante vigoroso - 3,3% -, que se traduziu por um aumento dos estoques. No período, a inflação elevada levou empresas e famílias a adiar suas compras no varejo, e a reação das empresas industriais foi reduzir a produção, deixando passar a forte alta dos preços das commodities.

Nada indica que a falta de crédito ou o seu custo tenham sido fatores importantes a levar as empresas a reduzir sua produção. De fato, em abril, segundo os dados divulgados pelo Banco Central, o saldo dos créditos da indústria cresceu 2,01%. O custo desses crédito caiu 0,3% para as pessoas jurídicas e, de fato, para essa categoria as concessões acumuladas no mês apresentaram recuo de 3,6% - mas não se sabe se isso se refere a empresas industriais.

Não há dúvida de que o setor teve de enfrentar alguma dificuldade com o fim do Programa de Sustentação de Investimentos do BNDES, no final de março, o que significou também o fim de juros subsidiados pelo banco oficial e o aumento do custo dos empréstimos. Em março, tinha havido um crescimento de 3,4% dos bens de capital, seguramente uma antecipação de necessidades para que fosse aproveitado o programa do BNDES. Assim, não é de estranhar a queda de 2,9% da produção de bens de capital em abril.

A queda de 10,1% dos bens de consumo duráveis é mais significativa: a indústria ficou sensível à queda da renda da mão de obra, em razão da inflação, e cedeu diante das importações a preços com os quais não pode competir. A desindustrialização está se acentuando, mas por enquanto não teve efeitos negativos sobre o nível de emprego.

Esse quadro autoriza a pensar que a indústria está apostando numa elevação das pressões inflacionárias nos próximos meses, quando os governos federal e estaduais se virem diante da necessidade de gastar mais em investimentos em infraestrutura e obras públicas. O setor também está se preparando para fazer frente aos reajustes salariais que aumentarão os custos de produção.

Mais conteúdo sobre:
cartas fórum dos leitores opinião

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.