A queda do muro nuclear

No final de maio, a Alemanha viveu 72 horas emblemáticas. No sábado (28), cem mil pessoas ocuparam as ruas de 20 cidades para exigir o fim do uso da energia nuclear no país. No domingo, ativistas do Greenpeace ocuparam a Portão de Brandemburgo com uma faixa onde se lia: "Todo dia com energia nuclear é mais um dia perdido". Na segunda, o governo decidiu desativar todas as usinas nucleares até 2022.

Marcelo Furtado, O Estado de S.Paulo

05 Junho 2011 | 00h00

Em 2001, o país tomou decisão similar: fim de nucleares até 2021. O governo alemão voltou atrás em 2010, quando estendeu a vida útil de seus reatores por 12 anos. Com a pressão popular, a racionalidade está de volta.

A decisão histórica foi influenciada pelo desastre de Fukushima e o anúncio feito pelo Japão de abandonar planos de novos reatores nucleares para investir em energias renováveis. A Suíça vetou a construção de novas usinas e eliminará os reatores no final da vida útil; a China congelou seu programa nuclear. Poucas semanas antes, a Ucrânia pediu mais de ? 1,5 bilhão para reparar rachaduras no sarcófago construído ao redor da usina de Chernobyl.

O governo alemão merece aplausos, mas também críticas pela falta de ambição: 2022 está distante, tendo em vista os perigos da manutenção dos reatores. A Alemanha poderia eliminá-los até 2015 sem comprometer a redução das emissões de gases-estufa, a segurança do fornecimento de energia e seu custo acessível. A energia necessária seria gerada por plantas eólicas, gás natural e investimento em eficiência.

Espera-se que o texto da lei, prometido para esta semana, traga "pegadinhas", como a transferência de vida útil de um reator desligado para outro ativo. Além disso, o governo não analisou riscos ligados a ataques terroristas, desastres naturais e vazamento de radiação do lixo radioativo.

Por fim, o governo precisa ser coerente. Não quer usar energia nuclear, mas não cancelou o financiamento da construção de Angra 3. O uso dessa tecnologia é desnecessário no Brasil. Segundo Sauer e Carvalho, ambos da USP, em estudo publicado na Energy Policy (2009), há uma ampla gama de tecnologias renováveis que pode ser utilizada para substituir a geração pela energia nuclear pela metade do preço.

O cenário para 2050 do estudo Revolução Energética, do Greenpeace Brasil, comprova que o País pode se desenvolver sem fontes nucleares, carvão e óleo. As fontes renováveis na matriz elétrica poderiam chegar a quase 92% em um leque diversificado, com hidrelétrica (46%), eólica (20%), biomassa (17%), solar (9%) e gás natural como complemento (8%).

A Alemanha e outros países deram esse importante passo para deixar o mundo mais seguro. O Brasil pode e deve seguir mesmo caminho e garantir um futuro renovável e limpo.

É ENGENHEIRO, MESTRE EM ENERGIAS

RENOVÁVEIS E DIRETOR EXECUTIVO DO GREENPEACE

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.