A rainha inglesa de Portugal

Dias Lopes - O melhor de tudo

jadiaslopes@terra.com.br, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2008 | 03h00

Às vésperas de morrer de peste negra, a rainha portuguesa Filipa de Lencastre (1359-1415) abençoou os filhos d. Duarte, d. Henrique e d. Pedro. Encontrava-se no Mosteiro de Odivelas, a 15 quilômetros de Lisboa, onde fora internada ao ser atacada pela doença. Os três partiriam para a tomada de Ceuta, no norte da África, juntamente com seu pai, o rei d. João I (1357-1433), um dos mais esclarecidos e hábeis soberanos da Idade Média. Semanas depois, à frente de 20 mil homens transportados por 240 embarcações, eles expulsavam os mouros daquela praça, iniciando a expansão ultramarina lusitana que culminou em 1500 com a descoberta do Brasil. Poucas rainhas européias se equipararam a Filipa de Lencastre em inteligência, cultura, determinação e glamour. Nascida na Inglaterra, pertencia à alta nobreza. Era neta de Eduardo III, filha de João de Gant, primeiro duque de Lencastre, e de sua primeira mulher, a duquesa d. Branca; e tinha como irmão Henrique IV, o rei que inspirou William Shakespeare a escrever o drama histórico no qual o debochado personagem Falstaff é acusado de trocar a alma por uma perna de frango e um cálice de Madeira, por coincidência, um vinho português. No romance histórico Filipa de Lencastre - a Rainha que Mudou Portugal (A Esfera Livros, Lisboa, 2007), Isabel Stilwell lembra que o destino luminoso da futura soberana havia sido previsto por frei João Tuttor, seu preceptor, um frade versado em astronomia e astrologia, cujos olhos viviam perdidos nas estrelas. O casamento com d. João I, realizado em 1387 na cidade do Porto, foi uma das maiores festas já ocorridas na cidade. A população inteira saiu às ruas para aclamar o novo casal. Amada pelo povo, Filipa de Lencastre deu a Portugal oito filhos, que educou à moda inglesa. Pela formação brilhante, eles passaram à história como a Ínclita Geração: d. Duarte (1391-1438) foi rei de Portugal, poeta e escritor; d. Henrique, duque de Viseu, chamado de o Navegador (1394-1460), investiu sua fortuna nas investigações cartográficas e náuticas da Escola de Sagres, que promoveram a expansão naval de seu país; d. Pedro, duque de Coimbra (1392-1449), tornou-se um dos príncipes mais esclarecidos do seu tempo, tendo sido regente durante a minoridade do sobrinho e futuro rei d. Afonso V. O contrato de casamento entre Filipa de Lencastre e d. João I - o rei que afastou militarmente a ameaça de a Espanha incorporar Portugal, derrotando-a em 1385 na Batalha de Aljubarrota - resultou do Tratado de Windsor, firmado com o britânico Eduardo III, avô da noiva. O documento selou a duradoura aliança política, diplomática e comercial luso-britânica. Mas o casal se apaixonou à primeira vista e viveu feliz. Isabel Stilwell apresenta Filipa de Lencastre com o cabelo loiro e os olhos cor do mar da mãe; do pai, herdou o nariz comprido e afiado, as maçãs do rosto salientes, os olhos pequenos, a boca marcada e sensual. Por outro lado, os biógrafos descrevem d. João I como um homem ''de corpo meão enxuto'', dotado de ''rosto comprido, mais magro que gordo, a testa pequena, o cabelo preto, e não muito basto, trazendo-o sempre comprido e mui concertado''. Uma das primeiras inovações de Filipa de Lencastre na corte lusitana foi organizá-la à inglesa. Interferiu até na etiqueta das refeições. As pessoas começaram a lavar obrigatoriamente as mãos antes e depois de comer. Os alimentos passaram a ser pegos com mais delicadeza numa época em que ainda se desconhecia o garfo. As carnes eram trinchadas de maneira que pudessem ser capturadas nas travessas com os dedos em pinça, ou seja, com o polegar, indicador e médio. Filipa de Lencastre tinha excelente cozinheiro, mas sendo frugal à mesa não lhe exigia pratos muito elaborados. Segundo Gomes Eanes de Zurara (1410-1474), autor da Crônica del Rei d. João de Boa Memória, ''seu comer não era por deleite, somente para suster a vida''. Em compensação, o marido ia à forra. ''D. João I, talvez porque guardasse na memória as privações a que foi obrigado durante o cerco de Lisboa (imposto durante quatro meses, em 1384, pelas forças espanholas), não partilhava a sobriedade da rainha'', afirma José Pedro de Lima-Reis, no livro Algumas Notas para a História da Alimentação em Portugal (Editora Campo das Letras, Lisboa, 2008). O cronista do reino Fernão Lopes (1378-1454) já havia documentado o apetite real. ''De vaca nunca errou el-rei três iguarias: desfeito, cozido e assado'', disse. Das três preferências gastronômicas de d. João I, a primeira é curiosa e sobre sua receita até hoje pairam dúvidas. Maria Antónia Góes, no Dicionário de Gastronomia (Colares Editora, Sintra, 2005), afirma que desfeito é ''termo arcaico para guisado de um alimento picado''. Entretanto, Lima-Reis julga ser palavra de significado controvertido e arrisca uma definição: ''Desfeito, talvez não passe de (...) uma jardineira pouco apurada''. Outra curiosidade é que, apesar de ser apreciador de vinho, no texto do Livro da Montaria, de sua lavra, d. João I mandou consumi-lo moderadamente. Segundo Lima-Reis, também reprovou o costume nacional de ''matar o bicho''. Embora possa não ser da época, a expressão também é muito antiga. Significa tomar aguardente ou cachaça de manhã, em jejum, de um só gole, ''para afogar o bichinho que está a formigar a barriga no romper do dia''. Haja estômago! GUISADO ARCAICO Desfeito de vaca 4 porções 40 minutos Ingredientes 2 kg de carne macia de vaca 70g de toucinho picado 50 ml de vinagre 2 ovos inteiros 2 gemas 1 colher (sopa) de manteiga Pão amanhecido ralado Canela em pó para polvilhar Temperos a gosto (cominho, cravo, açafrão, sal, pimenta) Preparo Corte a carne em pedaços pequenos. Numa panela, aqueça o toucinho, junte a carne e refogue bem. Coloque o vinagre, deixe levantar fervura e junte um pouco de água. Tempere com sal e adicione o pão ralado, o suficiente para dar um pouco de textura ao caldo, mexendo sem parar. Junte os ovos, tempere com cominho, pimenta, cravo e açafrão. Misture a manteiga e complete o cozimento, em fogo baixo, mexendo de vez em quando. Sirva polvilhado com um pouquinho de canela.

Mais conteúdo sobre:
rainha inglesa de portugal dias lopes

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.