A recessão de Chávez

Se ainda restava algum traço de seriedade nas afirmações otimistas feitas pelo presidente Hugo Chávez aos venezuelanos no início do ano - de que a Venezuela estava tão "blindada" contra os efeitos da crise que os problemas internacionais "não tocariam nenhum fio de cabelo" da economia nacional -, ele foi inteiramente apagado pelos dados do desempenho econômico do país no terceiro trimestre, que o Banco Central Venezuelano acaba de divulgar. A crise, que já havia reduzido o PIB da Venezuela em 2,4% no segundo trimestre, atingiu duramente o país no período de julho a setembro, quando o PIB encolheu 4,5%. É a recessão.

, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

Até há pouco, o governo bolivariano ainda tentava manter a ilusão vendida por seu chefe. "Nossa previsão é a de que encerraremos o ano com crescimento zero ou pouco acima de zero, para em seguida irmos recuperando, até alcançarmos o crescimento de 4%", disse o ministro de Economia e Finanças, Alí Rodríguez Araque, numa entrevista concedida no início deste mês. O dado do terceiro trimestre indica uma contração de 1% a 1,5% do PIB venezuelano em 2009.

A indústria petrolífera responde pela maior parte do PIB do país. Seu desempenho, por isso, é determinante no comportamento da economia e da arrecadação tributária. No terceiro trimestre, a atividade petrolífera encolheu 9,5%. Os resultados financeiros da estatal Petróleos de Venezuela S.A. (PDVSA) mostram, porém, que a crise começou antes. O lucro líquido da estatal no primeiro semestre foi 66,8% menor do que o da primeira metade de 2008 - o que afetou duramente as receitas do governo.

Quanto à inflação, no início do ano o governo previu que ela ficaria em 15% em 2009, mas, ao elaborar o orçamento para 2010, admitiu que poderia chegar a 22%. Continuou a subestimar a alta dos preços, pois a inflação de 12 meses apurada em outubro atingiu 28,9%, a mais alta num grupo de quase 80 países, e continua a subir. Projeções do setor privado são de que, no ano, ela ficará em 30%, o dobro da meta anunciada no começo do ano.

Como era de prever, o governo atribuiu as dificuldades da Venezuela à crise internacional. É preciso observar, porém, que a crise no país atinge seu ponto mais grave, pelo menos até agora, justamente no momento em que no resto do mundo ficam cada vez mais fortes os sinais de recuperação. No caso do petróleo, a recuperação dos preços internacionais não parece estar ajudando o país.

Por isso, segundo Ricardo Haussman, ex-economista-chefe do Banco Interamericano de Desenvolvimento e professor da Universidade Harvard, "não se deve culpar a crise mundial" pelos problemas da Venezuela. "O preço do petróleo, embora mais baixo do que a média de 2008, está muito mais alto do que há três anos. A economia venezuelana se desacelerou quando a economia mundial começou a se recuperar. Isso soa menos como efeito da crise internacional e mais como o esgotamento de um modelo de política econômica que não tem mais nada a dar."

Chávez colhe o que plantou. A combinação de alta da inflação e contração da economia é o resultado de anos seguidos de uma política econômica que afugentou os investimentos privados, mantém a taxa de câmbio congelada há seis anos (e nem assim evita a alta acelerada dos preços internos), congelou o preço da gasolina (o que beneficiou os mais ricos, que têm automóveis) e utiliza todos os recursos que a PDVSA consegue gerar (mesmo tendo perdido eficiência por falta de investimentos) em programas de caráter populista. A crise energética - o país enfrentou pelo menos seis blecautes de extensão nacional desde 2007 -, a escassez de alimentos básicos nos supermercados, a inflação e muitos e exaustivos discursos são alguns símbolos da república bolivariana de Chávez, observou a revista Newsweek em recente reportagem sobre a Venezuela.

A popularidade de Chávez cai, cada vez menos venezuelanos se dizem dispostos a votar nele e nem mesmo a ameaça de uma guerra com a Colômbia - que fabricou - está sendo suficiente para restaurar seu prestígio. Ele precisa da retomada do crescimento para se sair bem na eleição legislativa de 2010. Mas, com a crise da PDVSA e das finanças públicas, a recuperação depende dos investimentos das empresas privadas, que ele tanto perseguiu.

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