A revanche da Malbec

A história da uva Malbec mostra muito bem os altos e baixos da indústria vinícola argentina, atualmente numa ótima forma. Ela chegou à Argentina em meados do século 19 e hoje é a principal tinta em quase todas as regiões vinícolas, principalmente em Mendoza, de longe a maior e mais importante do país. Com ela são feitos tintos muito bons em vários níveis. Aqui, produtos mais populares, porém bons, com preços que não ultrapassam os R$ 25.O escritor Gustavo Choren, em seu belo e muito útil El Gran Libro del Malbec Argentino, destaca que é muito difícil precisar a rota da uva até Mendoza. Ele lembra a versão de que ela foi levada do Chile para a região de Mendoza pelo enólogo francês Michel Aimé Pouget, que fundou a primeira estação de pesquisa vinícola no país, mas argumenta que essa história não explica satisfatoriamente a chegada da Malbec a outras regiões, algumas bem distantes. Para ele, é pouco provável que os 60 mil ha que existiam em 1950 tivessem uma única origem. É mais lógico, conclui, que a uva tenha sido levada para A Argentina por várias pessoas e em várias épocas.Ela foi muito bem aceita, pois produzia bastante e seus vinhos tinham muita cor, um aspecto muito importante na época.Curiosamente, a Malbec foi vítima do enorme sucesso da indústria do vinho na Argentina, que estava no auge em meados do século passado. O negócio era produzir vinhos comuns em série para matar a sede dos consumidores. Em 1970, o consumo era de 91,66 litros por habitante-ano. Hoje, fica em torno dos 30 litros por habitante-ano. No "milagre econômico", privilegiando a quantidade em detrimento da qualidade, perto de 50 mil ha de Malbec foram arrancados e substituídos por uvas mais produtivas e piores, como Cereza e Criolla. Na década de 1980, premidas pela queda de consumo, as vinícolas passaram a dar mais atenção à qualidade. Com esse "renascimento" do vinho argentino, que continua até hoje, a Malbec recuperou a posição de uva fina mais plantada no país, mas nunca mais chegou aos níveis de 1950, subindo de pouco mais de 10 mil ha em 1990 para mais de 17 mil ha em 2001. Trivento Tribu 2006Onde encontrar: Wine Premium, 3040-3411Preço: R$ 23Cotação: 87/100 pontosA Trivento é ligada à gigante Concha y Toro, do Chile, que montou uma vinícola grande e moderna em Mendoza. Seus vinhos estão melhorando sensivelmente de ano para ano. Vinhos de vários níveis e preços. Este é da linha básica e impressionou muito bem mesmo, especialmente se levarmos em conta (como se deve) seu preço. Um vinho novo, mas pronto para o consumo. Cor de vinho novo, violácea. Aroma intenso, de frutas muito maduras, evocando compotas, o que encontramos em bons exemplares da Malbec. Algo de ameixas pretas e caramelo. Agradou principalmente pela sua concentração de sabor na boca. Redondão, gostoso, fácil de beber. Boa acidez, nada enjoativo. Álcool muito bem equilibrado. Ainda um pouco tânico, mas não amargo. Final agradável. 13,5% de álcool. Anubis Reserva 2005Onde encontrar: Cantu, 0300 210 1010Preço: R$ 23Cotação: 86/100Um tinto da Dominio del Plata, uma vinícola de Agrelo, Mendoza, dos grandes enólogos Susana Balbo e Pedro Marchevsky, que trabalharam na Catena e são muito respeitados em Mendoza. Uma vinícola relativamente pequena, mas com tintos, brancos e rosados de vários níveis. O Anubis é um tinto bem feito, com ótimo aroma, não tão bom na boca. Aroma complexo, com toques tostados e de baunilha. Na boca, dois tempos. Começa realmente muito bem. Intenso, redondo e gostoso. Boa acidez, mas ainda um pouco tânico. Ao final, os taninos vão ficando mais marcantes, mais agressivos. Talvez melhore com mais tempo na garrafa. No final, deixa a boca meio seca, rugosa. Álcool bem equilibrado, nada agressivo. 13,8% de álcool.Tilia 2006Onde encontrar: Vinci, 6097-0000Preço: R$ 25Cotação: 87/100A Tilia é uma nova marca da Bodega Esmeralda, que faz também os vinhos Los Álamos e é ligada à Catena. Seus vinhos chegaram recentemente ao Brasil e vêm agradando, principalmente quando consideramos os preços. Este Malbec é um tinto atraente, com boa concentração de cor e mais do que pronto para o copo. Aroma não dos mais potentes, mas agradável. Muito melhor na boca. Aparecem frutas, compotas e algo de chocolate, de cacau. Redondo, pronto, com taninos macios, nada agressivos. No aroma e na boca, evocações florais muito gostosas. Simples, direto, fácil de beber e com boa acidez. Dá sempre vontade de continuar bebendo. Taninos macios, nada agressivos e sem toques de amargor. Apenas um pouquinho alcoólico ao final. 13,5% de álcool.Nieto Senetiner 2004Onde encontrar: Casa Flora, 6842-5199Preço: R$ 25Cotação: 88/100Um vinho muito gostoso, pronto e com ótima relação custo-benefício. Tem a vantagem de ter mais tempo na garrafa. Um tinto mais evoluído que os demais provados. Apesar disso, cor de vinho bem jovem, violácea. Agradou ao primeiro contato. É evidente a presença de carvalho, que pode ter vindo das barricas, das tábuas ou de cavacos dessa madeira. O mercado gosta dos toques de carvalho e as tábuas e cavacos podem ser colocados em contato com os vinhos para emprestar suas características. O envelhecimento em barricas é um processo mais lento e caro. Aroma complexo, misturando frutas e carvalho. Ameixas, baunilha e caramelo. Na boca, continua no mesmo diapasão. Redondo, com boa acidez e ótimo final. Taninos finos, nada ressecantes. Álcool equilibrado. 14% de álcool.

Saul Galvão, de O Estado de S.Paulo,

03 de abril de 2008 | 03h58

Tudo o que sabemos sobre:
Saul GalvãoTintos & Brancos

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.