À revelia dos fatos e a favor de projeto do presidente

Ao aprovar a adesão da Venezuela ao Mercosul, o Senado deu seu aval a um dos mais arriscados projetos do governo de Luiz Inácio Lula da Silva na esfera internacional. O argumento de que não se trata de acordo com Hugo Chávez, mas com a Venezuela, foi aplicado à revelia de análise sobre a realidade do país vizinho. A presunção de que o novo sócio dará vigor a um processo de integração estagnado ignora decisões, cenas e declarações procedentes de Caracas.

DENISE CHRISPIM MARIN, JORNALISTA, O Estadao de S.Paulo

16 Dezembro 2009 | 00h00

O Congresso ignorou o fato de que o futuro quinto sócio do Mercosul é o país que mais destroçou a instituição democrática na América do Sul e cerceou a livre iniciativa. A alegação do governo Lula de que a submissão à cláusula democrática do Mercosul (Protocolo de Ushuaia, de 1998) trará a Venezuela de Chávez à ordem institucional parece extraída de conto de fadas.

Desde 2003, o governo Lula trabalha pela incorporação da Venezuela ao bloco por razões que vão além da simpatia ideológica. Em julho de 2006, conseguiu impor suas razões e fechar o protocolo, antes de concluídas as negociações sobre a antecipação do livre comércio da Venezuela com cada sócio do Mercosul, da convergência de suas alíquotas de importação à Tarifa Externa Comum (TEC) e da absorção do acervo histórico do bloco. Por quê? Porque a Venezuela se apresenta como campo de testes da atuação brasileira no exterior, segundo a concepção do governo Lula. Trata-se de posição para a qual a Argentina talvez nunca tenha se prestado integralmente e tão passivamente. No país vizinho, o governo brasileiro fez assentar a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), a Embrapa, a Caixa Econômica Federal (CEF).

As delicadezas políticas entre os governos Chávez e Lula facilitaram o acesso de construtoras brasileiras a obras que somam US$ 15 bilhões na Venezuela e estimularam o investimento de grandes companhias privadas. Caracas emergiu como via geradora de superávit comercial para o Brasil numa época em que a velha sócia Argentina estendia barreiras. As exportações brasileiras para a Venezuela saltaram de US$ 608 milhões, em 2003, para US$ 5,1 bilhões, em 2008.

No ano passado, houve o maior saldo positivo na balança comercial do Brasil, de US$ 4,6 bilhões. E o ingresso no Mercosul trará dupla vantagem aos exportadores brasileiros - além da tarifa zero, o produto do Brasil concorre com similares submetidos à TEC.

Antes do início da votação de ontem no Senado, um ministro de Lula reagia com cinismo a uma questão sobre os prejuízos da adesão da Venezuela à unidade do Mercosul. "Que unidade?"

De fato, o Mercosul foi engolido pelos dilemas econômicos de seus três sócios menores, não consegue superar suas imperfeições nem mergulhar numa agenda de acordos com parceiros substanciosos. Mas, a considerar o último encontro de líderes do bloco, em Montevidéu, Chávez pouco contribuirá para romper essa paralisia e muito se esforçará para contaminar o Mercosul com problemas que não lhe dizem respeito.

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