Felipe Rau/AE
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A rolha arrebenta na garrafa do mais fraco

Não estranhe se não achar vinho brasileiro na carta: há restaurantes parando de trabalhar com nacionais em protesto contra o cerco aos estrangeiros deflagrado pelos grandes produtores. Pequenas vinícolas rejeitam a salvaguarda

Patrícia Ferraz,

04 Abril 2012 | 20h49

Na segunda-feira, o professor da Universidade de Bolonha Gabriele Morandin se deliciou com o arroz com feijão, a farofinha, a couve e o pernil que fazem parte do almoço executivo do Dalva e Dito. Mas saiu dali sem matar a curiosidade em relação ao vinho brasileiro. Na falta de uma taça de nacional, provou um Chardonnay chileno. Gostou.

Tirar os vinhos brasileiros da carta foi a maneira que alguns chefs encontraram para protestar contra o pedido de salvaguardas feito pelos grandes produtores nacionais ao governo, medida que pode resultar no aumento de impostos para vinhos importados ou na limitação da importação, por cotas. Alex Atala, em São Paulo, e Roberta Sudbrack, no Rio, encabeçam o movimento. Alex tirou da carta todos os vinhos nacionais, Roberta manteve os vinhos dos produtores que se posicionaram contra a salvaguarda, mesma atitude adotada pelo Grupo Fasano.

A decisão sobre a salvaguarda só deverá ser anunciada em setembro. Mas na última terça-feira, em discurso durante a instalação do Conselho de Competitividade, a presidente Dilma Rousseff não deixou dúvidas: "Vamos adotar todas as salvaguardas possíveis para manter e desenvolver nossa produção, empresas e empregos, sempre dentro dos limites das regras internacionais".

Entre os integrantes do conselho recém-criado estão o diretor do Ibravin e representantes da Miolo e da Embrapa Uva e Vinho. Os pequenos produtores brasileiros não foram convidados a fazer parte do grupo. Representam 95% das vinícolas brasileiras e se posicionaram publicamente contra as salvaguardas desde o início, posição reforçada em manifesto.

As pequenas vinícolas estão convencidas de que as medidas privilegiam os grandes produtores e não resolvem o problema do elevado custo de produção do vinho nacional. "As salvaguardas não vão deixar o vinho brasileiro mais barato. O problema do vinho nacional não é o vinho importado, é a falta de bons créditos e o excesso de impostos", diz Daniel Geisse, diretor comercial da Vinícola Geisse.

Na opinião de Eduardo Angheben, da vinícola Angheben, em vez de limitar a importação ou sobretaxar os importados a melhor defesa para o vinho nacional seria igualar o ICMS entre os Estados. "Boa parte dos vinhos importados entra no País por Santa Catarina e Espírito Santo, que oferecem incentivos fiscais e isenção de ICMS. Isso reduz o custo dos vinhos importados, que se tornam mais competitivos que os nacionais", diz.

Pelas contas do Ibravin, 40% dos vinhos importados entram por Santa Catarina e Espírito Santo e 15% pelo Paraná, que também oferece incentivos fiscais aos importados. Ou seja, mais da metade dos vinhos chega ao Brasil custando menos por causa da desigualdade de ICMS. É esse o argumento dos pequenos produtores para afirmar que as salvaguardas atiram na causa errada - os importados -, quando o que torna a concorrência desleal é a diferença de ICMS.

As vinícolas pequenas estão preocupadas com a possibilidade de o boicote aos vinhos nacionais crescer. Elas vendem diretamente aos restaurantes e lojas e, portanto, são diretamente afetadas pelo protesto, enquanto as grandes vinícolas ficam protegidas porque descarregam a produção nos supermercados e distribuidores, escapando ao boicote.

"Para nós, deixar de vender uma caixa de vinho faz diferença", diz Eduardo Angheben. Daniel Geisse conta que a empresa já está sendo afetada pelo boicote. A solução, na opinião dele, seria o governo repetir para tintos e brancos a medida adotada para os espumantes, a redução do IPI de 30% para 10%. "A carga tributária no Brasil é tão grande que é possível comprar o Cave Geisse mais barato no Chile que no Brasil", diz. "O resultado é que o consumidor entende mais de vinho argentino e chileno que de vinho brasileiro."

A polêmica não para de crescer. A União Europeia enviou carta ao governo brasileiro manifestando preocupação - a Comissão Europeia está estudando o caso e deverá enviar um relatório no dia 24. Na mesma data, o Chile apresentará um argumento de defesa. O governo chileno já avisou que se a salvaguarda for aprovada, vai protestar junto à OMC. Os vinhateiros de Portugal manifestaram indignação. Os argentinos, ao contrário, estão bem quietos, e certamente animados com a possibilidade de aumentarem ainda mais sua participação. Como seus vinhos ficam fora da salvaguarda, chegarão a preços mais baixos e ocuparão mais espaço.

O que está em jogo, mais que o mercado de hoje, é o potencial de crescimento do mercado brasileiro de vinhos. O consumo atual, de 2 litros por pessoa, ainda é baixo, mas está crescendo.

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