Teju Cole/Divulgação
Teju Cole/Divulgação

A rosa da África no asfalto do Harlem

Escrito num fraseado original, livro não distingue o real do histórico, o artístico do religioso - o presente do passado

SILVIANO SANTIAGO,

15 de julho de 2011 | 15h54

Imigrante é quem perde o solo cultural. Pátria, família e amigos abandonados, ele atravessa, qual frágil e potente jato, a zona de turbulência do anonimato. Em reação ao entorno babélico, os olhos clicam as múltiplas facetas do cotidiano, mergulhando as fotos soltas e disparatadas em lembranças de velhas experiências e de figuras familiares e amigas, formadoras da personalidade. A memória serve para esconjurar a alienação presente do corpo, adensando e colorindo seres e coisas estranhos, inventariados no dia a dia tumultuado. Imigrante é tubo de ensaio. A mente é gerenciada em dependência de substâncias químicas que ela não classifica com correção, embora as abrace e com elas comungue no escuro da dúvida e da necessidade. Da mistura in vivo resulta um híbrido, uma bricolagem de ser humano passível (ou não) de ser reconhecido e aceito pelos estranhos que o acolhem. O espaço aberto no planeta pelos grandes descobrimentos foi pródigo em imigrantes (e, hoje, em emigrantes). As várias fases das diferentes imigrações no Novo Mundo já foram historiadas e ficcionalizadas. Surge uma bela novidade.

Em seu primeiro romance, Open City, Teju Cole, que viveu até os 17 anos na Nigéria, trabalha literariamente as diásporas, ordenando-as pelo ímã de Manhattan. Ao perder o solo cultural, o nigeriano Julius, narrador/protagonista do livro, se compensa. A solidão busca o bem-estar na música clássica, na literatura e na história do país que o perfilha. Como pesquisador na ala psiquiátrica do hospital presbiteriano da Columbia University, os rudimentos da vida gregária lhe são propiciados pela realização profissional. Instruído pela lição de Gustave Flaubert, Cole começa o romance pela vida sentimental do personagem adulto. Este, parece retirado do romance Amerika, de Franz Kafka. Nas duas ficções sobressai o desejo de relatar do patamar do abandono as minúcias do cotidiano - o da rua, do trabalho, das viagens em metrô e das visitas a museus. Julius não se quer enclausurado no vácuo. Avança na turbulência. Caminha aleatoriamente por Manhattan. Pegadas preenchem o vazio da vida. Enxerga a penúria financeira a minar a prosperidade. As grandes lojas estão "out of business". As estações de metrô são povoadas por figuras que o espelham simbolicamente. O aleijado, o cego, o surdo.

O ficcionista, que também é fotógrafo, fez uma seleção de seus cliques:

A documentação que recebeu ao cruzar a fronteira não o ajuda a compreender o inventário do real. Ajuda-o a visita ao Museu de Arte Folclórica. Encanta-se com as telas pintadas por John Brewster (1766-1854): "Cada retrato é um mundo lacrado, visível de fora, impossível de ser penetrado". Descobre: Brewster é pintor itinerante e surdo. As crianças e os adultos que retrata também são surdos. Comunicam-se por sinais. Julius não quer ser mero imigrante. Uma porta se fecha, outra maior se abre, como no caso dos cegos Jorge Luis Borges e Ray Charles. Open City é a rosa de uma nova África que fura o asfalto no velho Harlem.

Para compreender a condição humana rebaixada, Julius recorre à lembrança da devoção ioruba. Lembra-se de Oxalá embriagado e do poder maléfico do licor de palma. Tendo recebido de Olodum o saco da criação, Oxalá lega-nos seres de barro, deformados de nascença. É devoto de Oxalá o que nasce deformado, tranquiliza-se Julius. O culto que o filho do semideus lhe presta é ato de acusação, por isso se veste com o branco do licor que embriagou o insensato. Cavoucado, o solo cultural do cotidiano no Harlem se torna palpável. Palpável é também a imagem dos patos selvagens que Julius, da janela do apartamento, enxerga em "migração natural".

O imigrante é quem melhor pode naturalizar a migração, compreendendo-a como simples e rotineiro movimento dos seres humanos e aves pelo espaço do planeta.

Notável em Open City é o modo como o fraseado não distingue o que é dado como real e histórico do que é artístico e religioso. Como adiantamos, cegos e mudos tornam-se inteligíveis nas telas de Brewster e deformações físicas, na devoção ioruba. A caminhada por Wall Street vira a história holandesa de Manhattan, a pesca da baleia, Moby Dick e a fundação de igrejas. A espaçosa estação de metrô é catedral gótica. Vestida em camadas de preto, como em tela de Velásquez, uma senhora se adentra pelo carro do metrô. Presente e passado são indistintos, assim como os formatos originais de pessoas e de lugares, as texturas e as cores. Pela fé na "écriture artiste", a indistinção eleva a prosa sensível de Teju Cole ao absoluto da épica, destituindo-a, no entanto, da glorificação heroica ou do embasamento nacionalista.

O fraseado de Open City decide também não distinguir o que é sintoma nos pacientes da ala psiquiátrica do que foi o massacre dos índios e a escravidão negra. Os fatos cruéis que construíram a nação americana se encaixam organicamente na atualidade enferma dos cidadãos. A paciente V., professora na New York University e descendente dos índios do Delaware, publicou livro sobre o holandês Van Tienhoven, o monstro da Nova Amsterdam, que dizimou tribos inteiras da região. Sobrevive à custa de tratamento psiquiátrico e remédios. No caso de Julius, Open City decide também não distinguir o que é a insuficiência educacional na Nigéria, que o levou a migrar, do desentendimento recente com a mãe africana que, por sua vez, tinha se desentendido no passado com a mãe (avó no caso do personagem) de origem belga, perdida para sempre.

África, as Américas e a Europa se desintegraram pela violência, a dor e o desespero das diásporas. Híbridos, romance e protagonista deixam que o mundo entre em comunhão literária na época descrita por Carlos Drummond de Andrade como "tempo de gente cortada. / De mãos viajando sem braços, / obscenos gestos avulsos". Em suma, um romance notável, a ser lido em terra de amores expressos.

Trecho

"Cada um deve, em algum grau, conceber a si mesmo como o ponto padronizado da normalidade, deve assumir que o universo da sua mente não é, não pode ser, inteiramente obscuro. Talvez seja essa a definição de sanidade: por mais que sejam manifestas as nossas excentricidades, nós não somos os vilões das nossas histórias. Na verdade, é bem o contrário: nós bancamos, e apenas bancamos, o herói, e no turbilhão das histórias dos outros, mesmo daquelas que nos envolvem, nós somos nada mais do que heroicos. Quem, na era da televisão, não tem ficado na frente do espelho e imaginado a própria vida como um show que talvez seja visto por multidões? Quem, tendo isso em mente, não fez representações na vida cotidiana? Nós temos a capacidade de fazer o bem e o mal e, com maior frequência, escolhemos o bem." / Tradução livre de Francisco Quinteiro Pires

SILVIANO SANTIAGO é escritor, crítico literário, colunista do Sabático, autor, entre outros de Herança e Uma Literatura nos Trópicos (publicados pela Rocco)_

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