Khaled al Hariri/Reuters
Khaled al Hariri/Reuters

A rosa em cheque

Vazamento de hábitos extravagantes atinge imagem de benemérita e progressista de Asma Assad

Márcia Camargos, Estado de S. Paulo

28 Abril 2012 | 16h00

Foi uma bomba de efeito moral no topo da hierarquia. Nessa semana a União Europeia determinou sanções suspendendo a venda de produtos de luxo para a Síria. Recebida com apreensão pela ala feminina do clã, a medida inédita vai afetar duramente o estilo de vida dos Assads. Uma das mais atingidas será Asma, esposa de Bashar. Vista como a princesa Diana do Oriente Médio, a primeira-dama, de 36 anos, construiu com o apoio da mídia a imagem de mulher atuante, bem apropriada ao projeto do governo em direção à abertura comercial sem relaxamento do regime fechado. Ela funcionou como peça chave na tentativa de apresentar a Síria como Estado laico, moderno e cosmopolita, destacando-se ao lado do marido, que assumiu o poder com um discurso reformista. De origem sunita, Asma pôde agregar ao culto personalista dos Assads, perfilhados à minoria alauíta, um verniz de tolerância religiosa, conceito caro às democracias ocidentais. A silhueta elegante, valorizada pelo guarda-roupa sintonizado com a moda europeia, contribuíram para transformá-la em símbolo para as elites e inspiração para a classe média, que copia seus trajes e cortes de cabelo.

 

Veja também:

linkUE proíbe a venda de artigos de luxo para a Síria

tabela ESPECIAL: Repressão e violência na Síria

 

A mais nova do sofisticado trio fashion composto pela sheikha Moza Bint Nasser al-Missned, esposa do emir do Qatar, e pela rainha Rânia, da Jordânia, ela nasceu em Londres, de pais emigrados da cidade síria de Homs para o Reino Unido. Filha de um cardiologista, Asma completou os estudos entre o Queen’s e o King’s College, acumulando a licenciatura em ciência da computação e o diploma em literatura francesa. A promissora carreira que teve início na gestão de fundos no Deutsche Bank, passando pelo escritório nova-iorquino da JP Morgan, terminou quando ela casou, em dezembro de 2000, com Bashar Assad, cinco meses após ele tomar posse. Com Bashar, formaria o casal governante mais jovem da história síria.

Fluente em várias línguas, tornou-se uma figura pública que acompanha o marido nas visitas oficiais pelo mundo. Mas não escapa do clichê assistencialista, embora no site da embaixada síria em Washington sua atuação benemérita seja enfatizada com menções às iniciativas em educação, cuidados com crianças com necessidades especiais e microcrédito, além de programas de tecnologia rural. A biografia vem ilustrada por fotos em poses à Lady Di ou à Angelina Jolie, que, aliás, adotou uma garota síria. As fotografias se repetem, mostrando-a ora em eventos de caridade, ora em casuais passeios de bicicleta.

Em meio aos confrontos que se arrastam há um ano na Síria e mataram mais de 8 mil pessoas, o perfil da mulher arejada e influente sofreu danos irreparáveis com o vazamento de 3 mil e-mails revelando seus hábitos extravagantes. No rol das compras online constam joias, móveis e cristais. Os gastos, de proporções hollywoodianas, parecem incompatíveis com o salário de um presidente. Foi o bastante para a imprensa resgatar um artigo da Vogue que, em fevereiro de 2011, pouco antes dos levantes populares, chamou-a de “a rosa do deserto”. Na reportagem, em tour pelo apartamento num bairro de Damasco, Asma exibia o lustre da sala de jantar feito com recortes de histórias em quadrinhos como trunfo dos seus valores democráticos. Contou que, nessa escolha, os pais foram voto vencido contra os três filhos do casal.

Para Ehab Al Dairi, presidente em exercício da oposição síria no Brasil, o alarde em torno do veto aos produtos luxuosos esconde os verdadeiros problemas de um sistema que em 40 anos deixou cerca de 120 mil desaparecidos nas mãos da polícia secreta. Ele acrescenta que os projetos humanitários de Asma naufragaram. “Na prática, eles jamais foram implementados, e todo mundo sabe disso na Síria.”

Sara Ailyakin, ativista síria radicada no Líbano, vai mais longe: “Asma não é tão inocente assim, pois as conexões com o regime são anteriores ao casamento”, afirma, revelando que Firas Al Akhras, seu irmão, tem negócios com o megaempresário Rami Makhlouf. Primo do presidente e responsável pelas finanças da família, ele controla 60% da economia interna.

Sinal dos tempos conturbados e do clima de incerteza, nenhum membro da comunidade síria pró-Assad, em São Paulo, quis se manifestar. Nem o embaixador, Mohammed Khaddour, contatado em Brasília, se dispôs a comentar o assunto.

MARCIA CAMARGOS É HISTORIADORA E COAUTORA DE O IRÃ SOB O CHADOR

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.