A ruptura perde espaço

A oposição está chegando às eleições sem bandeira e sem discurso, como esta coluna tem mostrado, mas talvez isso signifique mais do que simplesmente um apagão político.

, O Estadao de S.Paulo

02 Dezembro 2009 | 00h00

Talvez seja a manifestação de algo mais profundo, como a impossibilidade de se fazer uma administração do Estado em contraste com as anteriores, como ocorreu tantas vezes no passado.

Segunda-feira o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, defendeu que já não é possível mudar radicalmente a política macroeconômica, que se baseia num tripé: forte superávit primário para assegurar a redução da dívida e o equilíbrio orçamentário; câmbio flutuante; e sistema de metas de inflação.

Meirelles pode ser contestado, mas, pelo menos num sentido, pode ter razão. A hipótese de confrontação ficou mais difícil. Seria preciso uma catástrofe econômica para justificar o sepultamento da que hoje é considerada uma receita bem-sucedida.

O governo Lula se preparou no início desta década para uma administração de rompimento radical "com tudo o que está aí". O Congresso do PT realizado em Olinda em 2001 emitiu um documento que pretendia definir as diretrizes do que seria um governo de mudança. Seu título dizia quase tudo: A Ruptura Necessária.

Mas, à medida que se consolidou sua candidatura, a realidade exigiu manobras que conduziram as forças políticas a direções opostas. Em junho de 2002, o então candidato Lula entendeu que seria imprescindível assinar a Carta ao Povo Brasileiro, por meio da qual "o PT beijou a cruz". Lá disse que, uma vez investido do mandato popular, seu governo se comprometia a respeitar a Lei de Responsabilidade Fiscal, a cumprir o superávit primário e a puxar os juros para garantir o controle da inflação. Foi o que fincou as bases dos oito anos de sua administração. Até onde os compromissos foram cumpridos ou não é outra conversa. O importante é entender que a ideia de ruptura não teve curso. Apesar da retórica sobre a "herança maldita", a administração Lula foi de relativa continuidade, com Palocci e Meirelles garantindo o respeito à ortodoxia econômica.

Ainda sobrevivem, no governo Lula e na oposição, rompantes de ruptura. A atual orientação do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) insiste em que está tudo errado no câmbio e nos juros e que é preciso adotar uma política econômica mais parecida com o modelo chinês do que com o dos países ricos. Paradoxalmente, é mais ou menos o que tem dito o principal pré-candidato da oposição à Presidência, o governador José Serra, que pede um rigor fiscal até agora não visto em governos anteriores.

Depois que a economia passou incólume pela maior crise global desde os anos 30, fica difícil sustentar o modelo de ruptura. O que se pode dizer é que provavelmente chegou o momento em que não há mais divergências profundas de programa. A administração do Estado brasileiro chega a uma fase similar ao que ocorre na Europa e nos Estados Unidos, em que os partidos se sucedem no governo, mas a forma de administrar não muda muito.

A partir do momento em que a novidade for percebida e aceita pelos partidos e pela sociedade, ficará mais fácil compreender o quadro eleitoral. A defesa de uma plataforma de mudanças se parece mais com a da campanha de Barack Obama: é mais sutil.

Confira

Em novembro, a política externa do Brasil emplacou três grandes fiascos.

O primeiro foi a realização da reunião de cúpula da Amazônia, que deveria trazer 10 chefes de Estado, mas só trouxe 3.

O segundo foi sustentar o insustentável: a necessidade da volta de Manuel Zelaya ao governo de Honduras, mesmo depois do término do seu mandato, previsto para 27 de janeiro.

E, finalmente, tolerar que a Argentina barre os brinquedos brasileiros. O Mercosul é o único bloco comercial que reconhece os brinquedos como produtos comercialmente sensíveis.

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