A tribo isolada que ajudou os ''uaçás''

Curiosidade leva matises ao 'pássaro gigante que cuspia fogo'

Leonencio Nossa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

31 Outubro 2009 | 00h00

Exímios conhecedores da densa floresta do Alto Solimões, os matises sempre são requisitados por agentes do governo para guiá-los em expedições. Além de entender o labirinto de rios e igarapés, a tribo fala a língua pano, a mesma das comunidades isoladas.

Quem passa algumas horas na tribo logo percebe o jeito brincalhão, divertido e generoso das pessoas. A aparência, porém, pode causar temor num primeiro momento. Para se proteger de animais e de índios inimigos, os homens se enfeitam de onça para as caminhadas. Espetam no rosto farpas de osso e espinhos de jarina - uma palmeira selvagem. Depois, colocam no nariz um semicírculo de madeira e tatuam as bochechas. As mulheres só perfuram as orelhas.

A aparência de felino, característica única entre os povos tradicionais da América do Sul, não foi suficiente para evitar que a tribo quase fosse extinta. Em 1960, chegou à beira do Rio Ituí o sertanista Pedro Coelho. Logo depois, apareceram madeireiros. E com eles veio a "febre" - como ficaram conhecidas as doenças que vitimaram a tribo. Dos mil índios que viviam na área, restavam apenas 83 no começo da década de 1980. Todos os sobreviventes eram crianças e adolescentes.

A partir de 1996, quando o governo criou a Reserva Indígena Vale do Javari e fechou o acesso aos Rios Ituí e Itaquaí, a comunidade voltou a crescer. Com o contato com os "uaçás" - homens "brancos" -, os matises passaram a ter vergonha de usar os enfeites de onça. Num lento trabalho de resgate da tradição, o sertanista Sydney Possuelo precisou mostrar fotos de jovens "uaçás" e roqueiros com piercing na língua e no nariz. Os matises recuperaram o orgulho.

Ao contrário das visões difundidas sobre os índios, os matises são pessoas que vivem em atividade durante quase todo o dia. Quando um menino entra na fase da puberdade, por exemplo, homens mascarados correm atrás dele para dar chicotadas e afastar a preguiça, que é associada pela tribo aos espíritos malignos.

Antigamente, os matises sonhavam em ter um animal igual ao dos madeireiros e caçadores "uaçás" - um cachorro. Daí um dos motivos desse povo simpático aceitar passivamente a entrada de estranhos em suas terras.

Dos tempos anteriores ao contato com os "uaçás", outro dos desejos desses índios era acertar os aviões que sobrevoavam a aldeia. Eles lançavam flechas e zarabatanas para o alto, na tentativa de acertar os "pássaros gigantes que cuspiam fogo". Na noite de quinta-feira, um grupo de matises encontrou um daqueles "gigantes" tombado na beira do Igarapé Jacuratá e correu para socorrer os "uaçás", - uma gente que nunca lhes despertou ódio ou rancor.

(Em 2002, o jornalista Leonencio Nossa ficou 105 dias entre os matises e lançou, em 2006, o livro "Homens Invisíveis", da Editora Record.)

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