A Venezuela às portas de mais uma eleição

Análise publicada originalmente no Estadão Noite

Wagner Iglecias*, O Estado de S. Paulo

18 Novembro 2015 | 21h00

A Venezuela vai realizar eleição no próximo dia 6 de dezembro, para a renovação de 167 cadeiras no parlamento, e a conjuntura não é favorável ao governo. O país vive intensa polarização política e atravessa severa crise econômica, com inflação em alta, desabastecimento de itens básicos de consumo, desvalorização da moeda e baixa das reservas em dólar. A economia gira quase que exclusivamente em torno da exportação de petróleo, e por conta disso a Venezuela vem sofrendo bastante nos últimos anos com a queda do preço do barril no mercado mundial.

Já de algum tempo Caracas tem recorrido a empréstimos da China para fechar suas contas e seguir bancando parte das políticas públicas. A popularidade do presidente Nicolás Maduro declina, atingindo patamares inferiores a 25% de aprovação e as pesquisas eleitorais são unânimes em apontar a vitória da oposição nas urnas. A vantagem dos oposicionistas sobre o governo, nas sondagens divulgadas até aqui, oscila de 20 a 30 pontos percentuais.

A eventual derrota do governo na eleição poderá abrir a possibilidade de que, com a maioria do parlamento, a oposição imponha daqui por diante sucessivas derrotas políticas ao presidente Maduro, aprofundando a crise de seu governo e precipitando o fim do chavismo, ciclo político iniciado com a chegada ao poder do ex-presidente Hugo Chávez em 1998. O desfecho do processo eleitoral venezuelano poderá acompanhar-se da eventual derrota do candidato governista Daniel Scioli no 2º turno da eleição presidencial argentina, que ocorrerá alguns dias antes, em 22/11.

Com a soma dos processos eleitorais na Argentina e na Venezuela, e a crise política do governo Dilma, no Brasil, vislumbra-se a possibilidade de que o ciclo histórico de governos progressistas na América do Sul pode encerrar-se em breve, ainda que Bolívia, Equador e Uruguai sigam governados por presidentes de variados matizes de esquerda. Mas com as eventuais mudanças que podem vir a acontecer em três das maiores economias da região (Brasil, Argentina e Venezuela), o pêndulo ideológico do continente, neste caso, poderia estar movendo-se, uma vez mais, para a direita, com a chegada ao poder de líderes políticos conservadores e/ou profundamente comprometidos com o ideário econômico neoliberal. Líderes políticos que provavelmente imporiam a suas sociedades duros e amargos programas de ajuste das contas públicas, com inevitáveis impactos sobre emprego, renda e bem-estar da população.

Maduro, no entanto, vem dando sinais de que derrotar o projeto bolivariano não será tarefa assim tão fácil para a oposição venezuelana. Já acenou com a possibilidade de uma aliança cívico-militar destinada a manter as conquistas sociais e políticas do chavismo em caso de derrota eleitoral. Não fica muito claro o que ele quer dizer com isso, mas há especulações que apontam para as mais diversas direções. Provável, no entanto, é a resistência dos setores populares beneficiados pelo giro à esquerda dado por estes países na última década caso governantes mais à direita venham a ganhar as eleições e governar a América do Sul no futuro próximo.

* Wagner Iglecias é doutor em Sociologia e professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP


Mais conteúdo sobre:
Estadão NoiteVenezuela

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.