A Venezuela na corda bamba

Em vida, Hugo Chávez procurou criar sua própria epopeia. E conseguiu. O líder da revolução bolivariana morreu esta semana por causa de uma jogada rasteira da biologia. Mas com sua morte nasceu o seu mito. O presidente mais controvertido a ocupar o Palácio de Miraflores, que dividiu o país em dois, como se fossem tírios e troianos, não abandonou o poder porque o povo o rechaçou nas urnas, mas porque seu corpo espartano, formado no Exército, não resistiu na batalha travada contra o câncer. Chávez perdeu apenas uma das 14 eleições das quais participou. Ele, que em sua juventude sonhava ser um jogador de beisebol, foi a grande liga da política. O trabalho de doutrinamento que ele - um pedagogo em causa própria, um catequizador nato -, realizou em todos estes anos, seguramente produzirão frutos após sua morte. O tenente coronel que se levantou contra Carlos Andrés Pérez em 1992 deixou uma marca tão notável que já existem aqueles que equiparam o destino do chavismo, guardando as distâncias, ao do peronismo. Sua morte provocou um terremoto espiritual no país.

Gloria M. Bastidas,

09 de março de 2013 | 16h28

A imensa procissão que levou seu caixão por Caracas sugere um movimento de massa muito mais emocional e profundo do que as estatísticas eleitorais jamais conseguiram mostrar. Chávez representa o arquétipo do líder carismático retratado por Max Weber. O vínculo que criou com seus seguidores é de natureza mágica religiosa. Este militar transformou-se numa espécie de pater familias para milhares de venezuelanos que cresceram no seio de famílias disfuncionais, sem a presença da figura paterna. Por isso seus partidários choram hoje, desconsolados; não sei se ele foi um presidente comum para eles; ou se foi seu protetor, seu redentor, seu messias; um homem que, de certa maneira, ocupava o lugar de Deus. Isso explica por que parte dos chavistas da base o compara a Jesus Cristo e o tenha ungido com o título de segundo libertador da pátria. Como ocorre em determinados atos religiosos, é uma postura irracional. A devoção que Chávez desperta em alguns setores é cega. E, como disse Camus em O homem rebelde, no terreno da fé não se faz perguntas e todas as respostas já estão dadas.

Seria inexato afirmar que o vínculo entre Chávez e a população se reduz ao religioso. A fé que ele desperta tem uma base real. Chávez reorientou a receita do petróleo para ela chegar aos setores mais humildes. O caudilho não só mobilizou os pobres com sua vigorosa retórica (e os fez sentir que não eram invisíveis), como colocou a tônica da sua gestão nos programas sociais. Por isso sua morte lança uma grande dúvida: se Nicolás Maduro, o herdeiro designado por Chávez, conseguirá preservar o legado do seu mentor. Não que ele deva se converter em outra deidade política. Isso será impossível: Deus tem embaixadores, mas não sucessores. A questão fundamental é se, em sendo eleito como indicam todas as pesquisas, poderá salvar a revolução e garantir a governabilidade na Venezuela. O horizonte econômico do país, com uma recente desvalorização da moeda de 46%, uma dívida externa de US$ 100 bilhões e uma das inflações mais altas do mundo, não é muito promissor.

A morte do presidente venezuelano também causa um impacto profundo na oposição, que sabe que não terá de enfrentar um titã, um peso-pesado como Chávez. O que, aparentemente, muda as regras do jogo. Mas os opositores ainda têm fresca na memória a derrota sofrida nas eleições de outubro e sabem que nestas eleições antecipadas que serão realizadas em breve as chances também serão pequenas. É certo que o "grande líder" não estará nos palanques, mas lá estará o seu mito. E não apenas isto: o governo liderado por Maduro controla todos os poderes do Estado (Conselho Nacional Eleitoral, Supremo Tribunal, Assembleia Nacional) e dispõe de enormes recursos para investir em propaganda. A disputa será assimétrica. É Davi contra Golias. Além disso, a oposição ainda carece de uma maior conexão com os setores populares. Talvez perceba que seu triunfo não está muito próximo, mas sabe que as perspectivas seriam melhores agora que o deus Chávez foi embalsamado. A partida do líder da revolução, que construiu um regime unipessoal e sectário, oferece uma esperança para seus detratores.

A grande incógnita é se Maduro vai radicalizar a revolução ou abrirá o jogo para dar um alicerce político para seu governo. Embora os programas sociais tenham sido centrais na gestão de Chávez, existem muitas demandas não atendidas. Os próprios chavistas da base saem diariamente às ruas para fazer reivindicações. A revolução os fortaleceu. Se Maduro busca a governabilidade, deveria se aproximar da oposição. Seria uma oportunidade valiosa para deixar a polarização para trás. O jingle da intolerância não é a melhor música de fundo para a nova fase após Chávez, que deixa a Venezuela numa corda bamba. Mas a questão fundamental é se Nicolás Maduro, um inexpressivo militante da esquerda radical, se atreverá a dar este passo na direção do diálogo, ou optará por aprofundar o projeto autoritário de Chávez em meio a um clima explosivo que poderá exigir o uso da força. O uso da efígie de Chávez não será suficiente para o príncipe herdeiro ter êxito e conseguir a paz social. É preciso algo mais do que um mito para um país avançar. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO GLÓRIA BASTIDAS É JORNALISTA, COLABORADORA DO JORNAL EL NACIONAL DE CARACAS, E ANALISTA POLÍTICA

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