A vida depois da bomba

Takashi Morita, sobrevivente da bomba atômica, luta para que o horror não seja esquecido

Camila Anauate,

27 de abril de 2008 | 17h07

São 8 horas e não há sinal de perigo. O policial militar Takashi Morita, de 21 anos, caminha pelas ruas de Hiroshima. Faz sol, é verão. Ele observa a cidade trabalhando, tranqüila. De repente, o estrondo ensurdecedor, o clarão e, então, um vento fortíssimo. Gritos desesperados, fogo, choro, uma chuva preta. Radioativa. Hiroshima está no escuro. São 8h15. - Em documentário, relatos de tragédia e superação- Vi pessoas gritando por socorro e muitas casas destruídas’ Atingido pelas costas, Morita é arremessado por 10 metros. O pano grosso da farda serve de proteção para o corpo, mas o pescoço, a nuca e as orelhas estão ardendo. Ele resiste, levanta. Escuta por todos os lados: "Soldado, aqui, por favor." Olha ao redor, tudo destruído. Ninguém entende o que acaba de ocorrer, a Segunda Guerra está praticamente no fim e o Japão, pronto para assinar a rendição. Ao meio-dia, o chefe da polícia militar anuncia: "Isso foi bomba atômica."  Sessenta e dois anos depois, Morita lembra com detalhes daquele 6 de agosto de 1945. "A cidade estava queimada, havia corpos no chão e eu sentia um cheiro horrível", conta. "Você imagina? Eram 140 mil pessoas morrendo na mesma hora. Pensei que fosse o fim do mundo."  Depois de três dias prestando ajuda aos sobreviventes, Morita foi levado ao hospital, onde ficou um mês para tratar das queimaduras. De lá, ouviu pelo rádio a notícia de que outra bomba atômica havia atingido o Japão. Dessa vez, em Nagasaki. "Eu pensava: por que mais uma vez?"  O país estava devastado. Na época, diziam que nenhuma planta nasceria nos próximos 75 anos, tamanha a destruição provocada pelo material radioativo. Morita é a prova contrária, da superação. Casou-se em 1946 e no ano seguinte nasceu sua primeira filha, Yasuko. "A vida tinha de continuar."  Terminada a guerra, abriu uma relojoaria em Hiroshima, mas os negócios não iam tão bem e ele ficou tentado a se mudar para um paraíso chamado Brasil. "Me falaram que aqui não havia ladrão nem mosquitos." Embarcou com a família em 1956, rumo a Capital, onde vive até hoje, no bairro da Saúde, Zona Sul.  Além de gerenciar um mercadinho, Morita é presidente da Associação das Vítimas de Bomba Atômica no Brasil, criada em 1984 para lutar pelos direitos dos sobreviventes. Hoje, a entidade tem 130 membros, que recebem indenização mensal do Japão (cerca de R$ 500). A cada dois anos, médicos japoneses vêm ao Brasil dar assistência às vítimas.  A associação também luta para que o horror não seja esquecido - nem repetido. "Só nós sabemos o trauma. Com as tecnologias de hoje, uma bomba atômica é capaz de acabar com o mundo inteiro. Queremos ser as primeiras e as últimas vítimas de bomba atômica."

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