Joe Burbank/Reuters
Joe Burbank/Reuters

A vilã de costume

Neurocientista acha ‘risível’ insistência em associar droga à causa da morte do garoto Trayvon Martin nas mãos de um branco

Lúcia Guimarães,

20 de julho de 2013 | 15h30

Dois dias antes do veredicto que absolveu George Zimmerman do assassinato do adolescente negro Trayvon Martin na semana passada, um neurocientista, em artigo de opinião no New York Times, classificou de "risível" a insistência da defesa de Zimmerman em apresentar o exame toxicológico da vítima. Martin tinha traços de maconha no sangue – nada que a ciência considere remotamente associável à altercação que levou à sua morte. O neurocientista é Carl Hart. Mais do que uma autoridade em toxicologia, ele conhece bem os outros motivos associados à morte do rapaz negro nas mãos de um latino branco. Como primeiro afro-americano a integrar um departamento de ciência na Universidade Colúmbia, a viagem de Hart percorre um território que boa parte dos americanos não chega a atravessar.

Passa, por exemplo, pelo ambiente asséptico de um laboratório nova-iorquino, no qual um afro-americano inala uma dose de crack administrada por um enfermeiro. Atrás da janela de vidro que lhe permite assistir à cena sem ser visto, outro afro-americano – Hart, no caso – observa e derruba mais uma de suas preconcepções sobre o uso e o abuso de drogas, a relação entre prazer e motivação no consumo das substâncias ilegais.

Por que era ele o homem de jaleco branco e não o homem que fumava crack do outro lado do espelho falso?, pergunta o médico em seu livro High Price (Preço Alto), cujo subtítulo é A Viagem de Autodescobrimento de um Neurocientista que Desafia tudo que você Pensa sobre as Drogas e a Sociedade. Hart, além de respeitado pesquisador na área de psicofarmacologia, é autor de textos didáticos amplamente usados nas faculdades americanas. A pergunta do autor no começo de High Price faz sentido. Afinal, Carl Hart cresceu num gueto de Miami onde drogas e violência eram rotina. Hart usou e vendeu drogas na escola secundária e fugiu do futuro que parecia inevitável ao se alistar na Força Aérea aos 18 anos. Tinha paixão pelo basquete, mas, ao ter uma bolsa esportiva recusada para cursar a universidade, tomou o caminho que haveria de percorrer não só com louros acadêmicos, mas também com um novo olhar sobre a guerra às drogas inaugurada nos anos Reagan. Três décadas de derrotas e marginalização especialmente dos pobres e minorias raciais.

A guerra não deu certo, diz o professor Hart. É hora de descriminalizar as drogas e investir em educação sobre os riscos reais, influenciar comportamento. E parar de fazer uso político da relação entre o uso de drogas e a criminalidade. Quando repetem alertas como "usar maconha é o primeiro passo para se viciar em drogas mais pesadas como a cocaína", Hart reage: é uma afirmação tão idiota e sem fundamento científico quanto dizer que fumar maconha leva à presidência dos EUA. Afinal, George Bush, Bill Clinton e Barack Obama apertaram seus baseados.

Pela primeira vez, um livro mistura pesquisa científica traduzida em termos acessíveis com memórias. E que memórias. Aos 6 anos, Hart viu o pai embriagado dar uma martelada na cabeça da mãe e concluiu que ela estava morta. A mãe sobreviveu, o pai foi embora. Ao receber um de seus primeiros salários no câmpus do prestigiado Instituto Nacional de Saúde, em Maryland, o doutorando Hart foi parado por dois policiais, sob suspeita de ser assaltante.

A questão racial, que ainda domina a vida americana, é como "um ruído de fundo", diz, com um sorriso. E ela ainda não se separou da questão das drogas, como Hart explica ao Aliás nesta entrevista.

O senhor acha que o presidente Obama demonstrou liderança na questão de drogas, especialmente por ser um problema que afeta sobremaneira os afro-americanos?

Não acredito que isso seja uma prioridade para Obama. Em 2010, no entanto, ele assinou o Ato da Sentença Justa para acabar com uma disparidade absurda. Por exemplo, antes da nova lei, uma pessoa encontrada com 5 g de crack teria que cumprir sentença compulsória de 5 anos. Para receber a mesma sentença, outra pessoa teria que ser presa com 500 g de cocaína. A proporção das penas por posse de cocaína para crack era, portanto, de 100 para 1. Com o ato, passou de 18 para 1. Mas a pena deveria ser idêntica, porque se trata da mesma droga consumida de maneira diferente. É como aplicar uma pena mais alta para quem fuma maconha do que para quem comeu um bolo de maconha.

Por que o senhor afirma que a política de combate às drogas nos EUA é pior que o problema das drogas?

O fato é que de 80% a 90% das pessoas que usam drogas no país não constituem um problema para a sociedade. E incluo entre elas nosso presidente, que usou cocaína e maconha, e antes dele o presidente Clinton e o presidente George Bush, que fumaram maconha. É importante levar em consideração todos esses usuários de drogas que não causam problemas. Mas a sociedade faz enorme investimento para combater o uso entre uma minoria. Lembro que estamos encarcerando predominantemente pessoas de pele negra e marrom neste país. Temos agora a maior população carcerária por habitante do mundo. Tudo isso me leva a concluir que essa política não está dando certo. Eu proponho uma política mais racional, como a de Portugal. Eles descriminalizaram as drogas e tratam as violações como nós tratamos as violações de tráfego aqui. A sociedade deixa claro que não aprova, não endossa o comportamento, mas não desperdiça recursos com o aparato criminal.

Portugal tem população pequena. O que o senhor sugere para países com grandes cidades como Brasil e Estados Unidos?

Precisamos dar um passo atrás. Primeiro é preciso reeducar o público sobre as drogas. Há tanta desinformação no momento que seria difícil, a curto prazo, descriminalizar as drogas em países como o Brasil. A maioria pensa que qualquer uso de droga é muito perigoso. Não é verdade. Pensam que opiáceos como a heroína aumentam os riscos de uma overdose. Não é fato. Você pode tomar uma overdose de heroína, mas é raro. A overdose acontece, em 75%, 80% dos casos, quando a heroína é combinada com álcool. Então é preciso explicar ao público sobre o perigo da combinação. Isso requer uma campanha educativa. Devemos educar o público sobre estimulantes. Se você toma um estimulante, não pode misturar uma anfetamina com cocaína. O efeito da cocaína é mais curto, o das anfetaminas e metanfetaminas, mais longo. Se misturar as substâncias à noite, não consegue dormir. E, se não dorme, tem mais risco de desenvolver problemas psicológicos. Uma vez que um país educa o público, o combate ao abuso de drogas se torna mais simples. Foi assim que fizemos com uma droga perigosa, o álcool, talvez a substância mais tóxica das que afetam a sociedade. Mas a maioria conhece o álcool e seus efeitos. Temos que fazer o mesmo com a heroína. Uma pessoa pode usar heroína e ir trabalhar na segunda-feira.

É importante deixar claro que o senhor não está recomendando o uso de heroína, certo?

Exatamente. Deixo claro que ninguém deve usar heroína, mas é preciso admitir que as pessoas a experimentam. Em toda a história, uma minoria da população dá um jeito de ficar high. O objetivo, então, é proteger essa minoria que escolhe usar uma droga como a heroína ou a cocaína.

Por que o senhor refuta a tradicional associação entre o aumento do crime e a chegada do crack nos Estados Unidos?

Vamos falar de estatísticas. Toda vez que uma nova droga é introduzida, há uma disputa de território porque os traficantes querem controlar o mercado. No meio dos anos 1980, achamos que o grande problema afetando a criminalidade era o crack/cocaína. Depois fomos estudar as estatísticas e ficou claro que a população usuária de crack era menor. O que o diferenciava era o fato de ser uma nova versão da cocaína. Não conhecíamos bem seus efeitos. Ficamos apavorados. Como os usuários eram a minoria, especialmente concentrada em bairros negros, foi uma boa oportunidade política para continuar marginalizando esses usuários sem que a sociedade como um todo se preocupasse. Aconteceu o mesmo com a cocaína. Sei muito bem disso porque morava em Miami e assisti à violência. O índice de homicídios chegou ao ponto mais alto nos Estados Unidos logo no começo da década de 1980 com a cocaína. A violência associada ao crack não foi especial, foi típica da chegada de uma substância ilegal ao mercado. Ela chegou e foi embora.

Viu o documentário ‘Quebrando o Tabu’, que tem a participação do ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso?

Sim, vi. Minha impressão geral é a de que fizeram um bom trabalho ao mostrar que uma política antidrogas ruim não é exclusividade dos EUA. É um problema global. No filme, Bill Clinton também aparece dizendo que cometeu erros em relação a essa política e que devemos mudar isso.

Por que o senhor decidiu fazer certas experiências de laboratório com seres humanos em pesquisas que antes usavam animais?

Quando comecei minha carreira, tinha grande interesse no efeito no cérebro de substâncias como nicotina, cocaína e heroína. Durante cerca de seis anos, fiz estudos com ratos. Mas, quando pensei quanto meu conhecimento do abuso de drogas era limitado, decidi que era importante estudar pessoas. A experiência me fez compreender melhor tanto as semelhanças quanto as diferenças.

O senhor se destacou por fazer experiências controladas em laboratório com usuários de drogas. Eles tinham a opção de parar de consumir em troca de alguma compensação. Umas das vantagens de estudar usuários de drogas foi a questão da escolha?

Sim. O que fazemos é dar a escolha de usar a droga ou receber uma compensação, que pode ser dinheiro. É possível manipular a quantidade de droga consumida, até de crack, usando a alternativa de maneira certa. Mas lembro que isso não acontece exclusivamente com seres humanos. Um animal de laboratório pode preferir beber um líquido açucarado ou brincar numa daquelas rodas de exercício a consumir mais cocaína. A diferença mais importante é a toxicidade neurológica, o estrago feito no cérebro. Por exemplo, quando damos drogas a uma pessoa não podemos dar uma dose alta demais. Com animais de laboratório, administramos doses até 30 vezes mais altas. Quando pesquisadores usam essas doses como modelo dos efeitos em seres humanos, acho que isso não é bom, porque ninguém suportaria consumir doses tão altas. As pessoas usam drogas para sentir prazer.

O senhor escreve que falta clareza sobre a diferença entre usar uma droga e ser dependente dela.

Sim, usar não é o mesmo que abusar. A vasta maioria dos que usam cocaína ou heroína não abusam. Ao não fazer essa distinção, promovemos políticas que não são eficazes.

A questão racial pode ser dissociada da maneira como o combate à droga ocorre nos Estados Unidos?

A questão da raça predomina como tema na vida americana e, no que diz respeito às drogas, afeta o policiamento e as prisões. É preciso ocupar as celas e é mais fácil fazer isso com a população que tem menos mecanismos de defesa. A raça é apenas uma variável.

E como a raça marcou sua carreira científica?

Você se acostuma a ser o único em certos círculos. É como um ruído de fundo. Um dos aspectos importantes, talvez uma vantagem para mim, é o fato de que tenho um ponto de vista um pouco diferente do de meus colegas. Ser o primeiro ou o único num ambiente traz uma certa pressão para ter melhor desempenho, mas não posso ficar pensando nisso.

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