''A violência surge como os mensalões''

Entrevista - Roberto DaMatta: antropólogo; DaMatta faz paralelo do vandalismo no futebol com desvios de conduta na política: 'Clara ruptura das normas do bom senso'

Eduardo Maluf, O Estadao de S.Paulo

08 Dezembro 2009 | 00h00

O antropólogo Roberto DaMatta compara a violência de domingo no Couto Pereira aos mensalões do Brasil: "Uma clara ruptura das normas aceitas do bom senso e do razoável."

É possível encontrar explicação para a violência em Curitiba?

Uma explicação completa não creio. As ações brutais dos ataques dos torcedores aos policiais, juiz e bandeirinhas são rompimentos não esperados das regras que comandam o encontro esportivo (um confronto competitivo, no qual todo mundo sabe que vai haver alegria e decepção) e a vida social em geral. Nesse sentido, a violência surge como os mensalões: uma clara ruptura das normas aceitas do bom senso e do razoável. Desse ponto de vista, a violência equivale ao acidente, ao inesperado e ao não previsto. Claro que se espera frustração, decepção e que não é fácil lidar com isso num estádio de futebol numa disputa que vai levar um time não para cima, mas para baixo. Se os jogadores não brigaram e o derrotado aceitou tão bem a vitória do Fluminense, esperava-se uma manifestação normal, ainda que grosseira ou patética dos perdedores. O que vimos, porém, foi bem além da conta. Ultrapassou os limites do bom senso.

Os problemas no cotidiano são levados ao campo de futebol ou esse é um tipo vazio de explicação? A impunidade contribui para cenas como aquelas?

Há um elo entre futebol e cotidiano. É o elo do excepcional e da ausência de obrigação e trabalho que são próprias do mundo "real" ou verdadeiro. O problema é que, para nós, seres humanos, tudo o que focamos pode tornar-se real e verdadeiro. A impunidade aqui tem, a ver, penso com duas questões: (a) o fato de que o torcedor se pensa como anônimo e inimputável porque ele age como parte de um grupo sem fronteiras (uma torcida) e não como um indivíduo ou pessoa responsável; e (b) ele sabe que o futebol não é algo tão sério quanto uma fábrica, de modo que sua reação extremada não seria levada com o mesmo teor de seriedade se fosse em outro lugar. A impunidade geral contribui como um grande pano de fundo, porque ela causa enorme revolta e é enorme violência contra quem é cidadão de bem que não vê os criminosos serem enjaulados ou punidos.

Os torcedores agiram em grupo e perceberam que a polícia estava em menor número. Se houvesse mais policiais, os vândalos teriam, provavelmente, se intimidado...

Se a polícia tivesse agido com mais disciplina, formando uma linha, eles provavelmente teriam recuado. Valeu o proibido proibir que faz parte da nossa ideia errônea segundo a qual numa democracia tudo é possível e o povo de Deus (ou do Diabo, como foi o caso) pode fazer tudo.

Há algum modo de reduzir a violência? Que punição deveria ser adotada?

O único meio de reduzir a violência é falar dela com integridade: querendo saber o que realmente ocorreu no estádio e dentro dos torcedores. Em seguida, estabelecer regras e limites para que seja evitada e cumprir as regras, ou seja, colocá-las dentro de cada um de nós, coisa que não fazemos no Brasil. Ademais, o episódio revela isso que nós, antropólogos, estudamos com tanto afinco e deslumbramento: o fato de que mesmo nesta era de computadores, redes, globalizações e outros bichos, ainda há o mistério da vida em grupo, o amor pelo clube que desencadeia não mais amor, mas ódio.

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