A vitória no campo

Insatisfeitos com lento retorno financeiro do café, os primeiros imigrantes resolveram arriscar outras lavouras

Fernanda Yoneya,

10 de maio de 2008 | 18h13

Desiludidos com o lento retorno financeiro das plantações de café, os primeiros imigrantes tinham duas alternativas: desistir do Brasil - mas a maioria precisaria, antes, batalhar pelo dinheiro da passagem para o Japão - ou se arriscar em uma outra lavoura. A determinação venceu. E, graças a ela, alguns produtos entraram para o cardápio dos brasileiros.  Veja também:- Entusiasta das cooperativas "A maioria veio para cá com a idéia de ficar rico em um ano com o café", confirma o engenheiro agrônomo Isidoro Yamanaka, ex-assessor do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Como a realidade foi bem outra, muitos aproveitaram que o governo paulista estava loteando terras para se fixar de vez por aqui. A idéia de plantar café, cultura que demora para dar lucro, logo acabou sendo descartada. Foi quando se lembraram de hortaliças e frutas. "Essas, sim, se encaixavam perfeitamente no que os imigrantes estavam procurando", diz Yamanaka, referindo-se ao curto ciclo de produção das culturas.  Sem mencionar que vários desses alimentos, muito consumidos no Japão, ainda não existiam no Brasil. Explica-se: na época, a dieta dos brasileiros era composta, basicamente, por arroz, feijão, carne-seca e farinha de mandioca - e os imigrantes estranharam muito.  Os japoneses logo plantaram berinjela, inhame, feijão azuki, couve japonesa, nabo, rabanete, batata-doce e mais uma infinidade de legumes, frutas e verduras. Os cultivos serviram como fonte de renda e ainda ajudaram na adaptação alimentar dos imigrantes. "A mudança de hábito do brasileiro à mesa deve-se, em grande parte, aos imigrantes, que trouxeram sementes do Japão", diz Yamanaka. Expansão  As lavouras japonesas começaram a se expandir do Interior em direção aos arredores da Capital. "Havia pressa em levar a mercadoria, muito perecível, aos centros compradores", conta Yamanaka. "Como naquela época o transporte era feito no lombo de burros, o local de produção não podia ser muito distante do centro de comércio." Foi quando regiões como Ribeirão Pires, Mauá, Bragança, Guararema, Itaquera e Parelheiros viraram pólos agrícolas.  O nome de uma das principais avenidas da Zona Leste deriva dessa expansão. A Jacu-Pêssego homenageia os antigos plantadores da fruta em Itaquera.  Outra história interessante: em 1911, um imigrante começou a plantar batatas em Taipas, onde hoje é o Morro do Jaraguá. Por ser uma cultura fácil e rápida, logo chamou a atenção de outros japoneses. Caso de Teijiro Suzuki, um dos primeiros a chegar ao País, que começou a plantar o tubérculo em Cotia. A produção era vendida em um largo de Pinheiros, na Zona Oeste, que logo ficou conhecido como Largo da Batata.  Os intermediários, no entanto, regateavam e os imigrantes acabavam vendendo a preços muito baixos. "Daí surgiu a idéia da união de produtores, embrião do cooperativismo", explica Yamanaka. "O objetivo era aumentar o poder de negociação dos japoneses, mas acabou barateando também a compra de insumos." União Assim, em 1919, os japoneses constituíram, em Uberaba (MG), o Sindicato Agrícola Nipo-Brasileiro, juridicamente uma sociedade de capital aberto, mas já fundamentada em princípios cooperativistas, apesar de a lei brasileira sobre o tema só ter sido promulgada em 1932. Da mesma forma, surgiu em 1927 a Cooperativa Agrícola de Cotia (CAC), com a união de cerca de 80 agricultores. No embalo da CAC, apareceram outros grupos de produtores. Em São Paulo, estão entre os principais a Cooperativa Agrícola Sul Brasil, a Cooperativa Agrícola Bandeirantes, a Cooperativa Central de Bastos, a Cooperativa Agrícola da Fazenda Katsura de Iguape e a Cooperativa Agrícola de Registro. Viraram ícones de coletividade da colônia japonesa. "Infelizmente, desapareceram na década de 90", diz Yamanaka.

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