A volúvel Álbion

As atenções mundiais estão voltadas para o resultado do referendo britânico quanto à permanência ou a saída do Reino Unido da União Europeia. Ficar ou sair? Remain ou Brexit? David Cameron recorreu à jogada arriscada para tentar deter os críticos de Bruxelas e remendar as fissuras no Partido Conservador. 

Marcelo de Paiva Abreu, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2016 | 09h22

Com maior ou menor intensidade, o Reino Unido tem vivido uma relação de amor e ódio com Bruxelas, que dura desde 1960, quando o primeiro-ministro Harold Macmillan decidiu pleitear admissão ao então Mercado Comum Europeu. A opção europeia pareceu atraente como forma de preservar a influência global do Reino Unido em um mundo pós-descolonização e após o vexame anglo-francês em Suez, em 1956. Londres arranhou a porta de Bruxelas por longo tempo e enfrentou dois vetos de De Gaulle, desconfiado de que o Reino Unido seria o cavalo de troia para que os EUA exercessem influência indevida na Europa.

Londres sempre buscou tratamento diferenciado em relação às demais economias da União Europeia. Vacinada pela crise da libra em 1992, resistiu acertadamente a ingressar na zona do euro. Mostrando reservas quanto aos fluxos imigratórios, não faz parte do Tratado de Schengen, que dispensa controles de fronteira intra-União Europeia. David Cameron obteve recentemente algumas concessões adicionais, principalmente quanto a requisitos para o acesso de imigrantes a serviços públicos. 

Brexit é forte contra Londres, contra a globalização e contra a imigração. Raízes aparentadas às do apoio a Donald Trump nos EUA. A ênfase na imigração permite que plataformas racistas como as do Ukip, de Nigel Farage, sejam proeminentes na coalizão pró-saída. Dado que o Reino Unido não subscreve Schengen, o argumento que resta é o suposto ônus que os imigrantes impõem aos locais, quando têm acesso a serviços públicos como educação e saúde. Isso a despeito de estudos que mostram que imigrantes pagam mais impostos do que custam aos cofres públicos. Mas racismo é contagioso. Fiquei deprimido ao ver, na BBC, duas adolescentes negras, entrevistadas em Brixton, no sul de Londres, esposando teses favoráveis ao maior controle da imigração. 

A maioria das análises imparciais tem sublinhado os custos econômicos da vitória do Brexit. Possível retração de investimentos diretos, essenciais para financiar o déficit em conta corrente de 7% do PIB. Necessidade de renegociação do acesso ao mercado europeu. Entre outras. 

No terreno político seria provável, em vista da maioria do Remain na Escócia, uma retomada vigorosa das tendências separatistas. Haveria também complicações irlandesas na fronteira entre a Irlanda do Norte e a República da Irlanda. Isto em meio à derrocada de Cameron e dos partidos tradicionais. Qual seria o papel político do Reino Unido fora da União Europeia? As forças para atração ainda mais forte para a órbita dos EUA seriam poderosas. A insistência dos defensores do Brexit de que o Reino Unido reconquistará graus de liberdade, dando as costas para Bruxelas, é totalmente ilusória. 

Talvez o voto favorável ao Brexit ainda possa ter sido evitado na esteira do brutal assassinato da deputada trabalhista, pró-Remain, Jo Cox. Mesmo uma vitória apertada do Remain manterá o Reino Unido na sua tradicional posição de reticência e oposição mais ou menos velada às iniciativas de Bruxelas sob inspiração franco-alemã. Não é de admirar que falcões europeus, como o ex-primeiro ministro francês Michel Rocard, tenham ventilado o seu apoio ao Brexit, para que se abra espaço às iniciativas de integração propostas por Bonn e Paris.

Apoiar o Remain não é algo que, como lembrou Wolfgang Münchau no Financial Times, deva depender de avaliações econômicas. É uma decisão sobre estilo de vida. Se o Brexit prosperar, será um duro golpe no retrospecto britânico quanto à tolerância racial. Alinhamento com Bruxelas pode ser ruim, mas a alternativa é bem pior.

*É DOUTOR EM ECONOMIA PELA UNIVERSIDADE DE CAMBRIDGE, É PROFESSOR TITULAR NO DEPARTAMENTO DE  ECONOMIA DA PUC-RIO

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