A zuppa-rock de Rita Pavone o melhor de tudo dias lopes

Ela cantava alternando a doçura e a estridência da voz. Sabia dançar e se saía bem em bailados de coreografia complicada. Chorava escandalosamente quando queria. Era baixinha e magra, media cerca de 1,50 m de altura e pesava em torno de 40 quilos. Recebeu o apelido de Pel di Carota (Pele de Cenoura), em virtude da cor rosada do corpo e do tom avermelhado do cabelo. Também a chamavam de Zanzara (Mosquito), em alusão ao físico e ao filme que rodou com esse título, em 1966. Rita Pavone, a cantora italiana que sacudiu a juventude da década de 60 com músicas desinibidas, surpreendia em tudo. Nasceu em 1945, na cidade de Turim, no Piemonte, em uma família de operários. O pai era funcionário da Fiat. Estudava e trabalhava como balconista quando venceu, em 1962, na cidade de Ariccia, perto de Roma, um concurso de novos talentos, o Festival Degli Sconosciutti, promovido pelo ator e cantor Teddy Reno (o intérprete de Picolissima Serenata). A gravadora RCA a contratou imediatamente. O descobridor virou seu empresário, amante e finalmente marido. A união foi oficializada na Suíça, em 1968, no meio de um escândalo. Teddy era casado, pai de filho e 19 anos mais velho que Rita. Tornou-se importante em sua vida. Deu-lhe dois filhos. Ajudou a organizar e direcionar sua carreira artística.A maior figura feminina do rock italiano fez sucesso internacional cantando na língua materna e também em francês, espanhol, alemão e inglês (impecável). Liderou paradas de sucesso e vendeu 35 milhões de discos interpretando canções imortais: Cuore, Come te non c''''é Nessuno, La Partita di Pallone, Datemi un Martello e Che m''''Importa del Mondo, por exemplo. Estrela de primeira grandeza da juventude musical italiana dos anos 60, ao lado de Edoardo Vianello, Gianni Morandi, Nico Fidenco, Sergio Edrigo, Teddy Reno, Umberto Marcato e outros, apresentou-se em vários países, entre os quais o Brasil, onde esteve algumas vezes. Promoveu a imagem, a alegria de viver, a cordialidade e, de certa forma, o prazer de comer do seu povo, consagrando um prato popular da cozinha da Toscana: pappa col pomodoro (em português, papa com o tomate). Tudo começou na televisão. Em 1964, a original e polêmica cineasta romana Lina Wertmüller (a mesma de Mim Metallurgico), contratou Rita para o papel principal da minissérie Giornalino di Gian Burrasca, transmitida pela RAI. O enredo se baseava no romance homônimo de Vamba, pseudônimo do jornalista e escritor italiano Luigi Bertelli (1858-1920). Redigido na primeira pessoa, narra as aventuras de Giannino Stoppani, o Gian Burrasca (borrasca ou tempestade do mar, em português), um jovem que no seu diário particular denuncia a incompreensão da família, ridiculariza as pessoas que o repreendem e confidencia molecagens.Rita o encarna cantando e dançando, em trajes masculinos, de chapéu, gravata e botas, o prato festejado por Gian Burrasca: ''''Viva la pa-pa-pappa/Col po-po-po-po-po-po-pomodoro/Ah viva la pa-pa-pappa/Che è un capo-po-po-po-polavoro/Viva la pa-pappa pa-pappa/Col po-po pomodoro.'''' Depois, gravou a canção no disco Gian Burrasca, de 1965. Espalhou mundo afora uma receita deliciosa. A pappa col pomodoro é um prato da simples, caseira e deliciosa culinária toscana. Pertence à categoria das zuppe (plural de zuppa). A cozinha italiana tem ainda uma preparação chamada de minestra. Equivale à nossa sopa. Um caldo inicial harmoniza diferentes ingredientes, conferindo-lhes substância, aroma e sabor particular. No passado, constituía prato único das refeições. A zuppa é irmã da minestra. Surgiu entre os camponeses pobres. Aproveita sobras e restos de alimentos. Leva pão caseiro dormido, legumes e verduras disponíveis em casa. Cozida durante horas e perfumada com abundante óleo de oliva, converte-se em uma preparação que, segundo a voz do povo, fica mais saborosa no dia seguinte, reaquecida. A Toscana sempre foi mestra no preparo da zuppa, da qual possui duas dezenas de variedades. A mais notável é a ribollita: pão caseiro em fatias, feijão branco, alho-poró, aipo, repolhos verde e roxo, cenoura, tomate, cebola, alho, sálvia, tomilho, salsinha e, obviamente, bastante óleo de oliva. Também pode ser enriquecida com batata, abobrinha, ervilha, etc.Os habitantes da Província de Siena gostariam de ser os inventores da pappa col pomodoro. Autores inspirados pretendem que ela descenda da cozinha dos etruscos - os habitantes da antiga Etrúria, antiga região da Itália central, correspondente à atual Toscana e a uma parte da região da Úmbria, que ali viveram entre os séculos 8º e 1º a.C. Mas a presença dominante do tomate na receita dessa zuppa, ingrediente americano que chegou à Europa após a descoberta de Cristóvão Colombo, parece abreviar sua saga. Originalmente destinada às crianças e velhos, às pessoas cansadas e convalescentes ou vítimas da ressaca alcoólica, a pappa col pomodoro acabou conquistando os adultos e o mundo em geral. Sobretudo depois de Rita Pavone a consagrar em uma canção que embalou a humanidade.DATEMI UNA FORCHETTAPappa col pomodoro5 porções40 minutosIngredientes300g de pão caseiro dormido; 1 litro de caldo vegetal fervente; 1 cebola pequena picada; 2 dentes de alho picados; 6 colheres (sopa) de azeite de oliva; 500g de tomates frescos, sem pele e sem sementes, bem picados; 1 macinho de manjericão; óleo de oliva para regar; sal a gostoPreparoCorte o pão em pequenos cubos, coloque em uma tigela e, em cima, derrame o caldo fervente. Deixe o pão amolecer, até ficar reduzido a uma papa. Em uma panela, doure a cebola e o alho no azeite quente. Adicione os tomates, misture, coloque o manjericão e o pão. Ajuste o sal e cozinhe por 15 a 30 minutos, mexendo. No final do cozimento, os tomates devem estar completamente desfeitos. Deixe repousar por 1 hora, descarte o macinho de manjericão e misture bem. Sirva a papa quente, mas não fervendo, regada com um fio de azeite. Segundo os toscanos, fica melhor no dia seguinte, reaquecida.* Veja Rita Pavone em Viva la Pappa col Pomodoro: www.youtube.com/watch?v=aqIKVEh9BPI.

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