Abacates e Baleias

O que vemos na internet é o que realmente somos, mesmo que isso nos seja desalentador

Demi Getschko, O Estado de S.Paulo

14 Maio 2017 | 21h00

Nesta semana o The Guardian consultou seus leitores sobre a necessidade, ou não, de colocar avisos em abacates para prevenir dos riscos que se corre ao tentar descascá-lo, e acabar ferindo-se. Sinal dos tempos… Abacate seria, assim, um fruto perigoso à nossa integridade física. Ou, se não ele, a faca. Quem sabe possamos controlar a venda de facas, ou lutar por “facas seguras”, que venham sem corte e cuja lâmina seja feita de plástico flexível. E, por que não, martelos seguros, feitos de isopor ou algodão; pregos sem ponta e de material biodegradável como papelão.

O fato é que não há ferramenta intrinsecamente segura. Seguir numa linha dessas apenas denota o abandono do bom senso. O que podemos e devemos almejar é o uso seguro das ferramentas. Difundir que há formas seguras de usar uma faca, mas que ela sempre poderá ser uma arma. Quem decide qual o resultado da ação da faca – e é por ela responsável – é quem a maneja. 

E a internet? A Netmundial em 2014 já definira que “os direitos humanos garantidos ‘online’ devem ser os mesmos que temos ‘offline’, mas e as ameaças e os riscos? Será ela segura? Claro que não é! 

Usamos as redes sociais na internet e elas nos lembram, dolorosamente, de nossas mazelas humanas: das mentiras que divulgamos, das fraudes que existem, do ‘levar vantagem”, dos preconceitos, das agressões. Mas, como se tratássemos apenas de cortar um “abacate virtual” com uma “e-faca”, nos imaginamos, ingenuamente, a salvo na rede. 

Repetindo o mote que Vint Cerf cunhou há alguns anos, “a internet é apenas um espelho de nossa sociedade”. O que lá vemos é o que realmente somos, mesmo que isso nos seja muito desalentador. Quebrar o espelho não resolveria o problema, apenas o ocultaria. Tampouco adiantaria “consertá-lo” tornando-o um “espelho mágico”, para mostrar-nos uma realidade mais agradável. A única forma de melhorar a imagem que vemos é trabalhar sobre o original que a gerou: nós mesmos. Tentar “maquiar” isso nada resolve, apenas nos faz virar o rosto para a realidade e escolher confortavelmente a pílula azul em lugar da pílula vermelha, ao contrário do que fez Neo em Matrix.

Se o que queremos é nos proteger e aos nossos, há que lutar pelo “uso seguro” da rede. Antanho ensinava-se aos pirralhos que prudência e comedimento eram boas qualidades. Não sei se hoje isso ainda vale. Mas se removermos o caroço do abacate prudentemente, não cortaremos a mão. Se usarmos a internet com juízo, e ensinarmos aos pequenos como agir, acompanhando seus passos, eles não cairão no conto da Baleia Azul e assemelhados. O fato é que não dá nem para evitar que problemas existam, nem para olimpicamente ignorá-los. Mas dá para voltar ao bom costume julgar, sem depender unicamente da tutela dos que nos ditarão que é melhor não comer abacate, dado que podemos cortar um dedo. Ou, pior ainda, proibir o abacate, as facas, os martelos, os pregos… e a internet. Viver já é, em si, perigoso e fatal. Termina inevitavelmente em morte. Saibamos usar o que temos hoje, sem perder o juízo!

É ENGENHEIRO ELETRICISTA

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