Abstenção do Enem custa R$ 63,7 mi

Modelo híbrido da prova e alto índice de isenção da taxa de inscrição alavancam inscrições, mas também favorecem o número de faltas

PAULO SALDAÑA, O Estado de S.Paulo

24 Outubro 2011 | 03h03

Após o segundo dia do Enem, na tarde de ontem, a estudante paulistana Gisele Spatuzzi, de 17 anos, estava feliz com seu desempenho - só não sabia exatamente o que fazer, agora, com a nota. "O Enem serve pra tantas coisas, quero ver no que posso me dar bem." A dúvida se repetia entre alguns inscritos, por causa de uma prova que tem nome e função de avaliação do ensino, mas também serve como vestibular e é critério de bolsa de estudo.

O modelo híbrido do Enem alavanca o número de interessados em realizar a prova - neste ano, chegou-se a um número recorde de 5,3 milhões -, mas resulta em um preço alto para a organização e aplicação. A abstenção em 2011 foi menor que a do ano passado, entretanto ainda representa mais de um quarto dos inscritos. Segundo o Ministério da Educação (MEC), 26,4% dos candidatos faltaram - como comparação, esse índice fica em torno de 6 % a 8% em um vestibular como o da Fuvest.

O custo com os faltosos este ano foi de R$ 63,7 milhões - quando calculado um valor de R$ 45 por aluno inscrito. O governo cobra R$ 35 para o aluno fazer a prova, mas 71% são isentos. O contrato de aplicação do Enem teve aumento de 190% em um ano: saltou de R$ 128,5 milhões, em 2010, para R$ 372,5 milhões.

Evolução. O Exame Nacional do Ensino Médio nasceu em 1998 como ferramenta nacional de uma avaliação do último ciclo da educação básica. A partir de 2009, ganhou status também de vestibular - já adotado pela maioria das universidade federais do País. Além disso, a nota é usada como critério para a concessão de bolsas do Programa Universidade para Todos (ProUni) e financiamento estudantil. Ainda é usado para certificação do ensino médios para jovens e adultos.

Para o coordenador de relações internacionais da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Leandro Tessler, essa característica híbrida não invalida o Enem, mas ele diz acreditar que o exame deve evoluir para um dos lados.

"Há muitos especialistas que dizem que o Enem é um sonho impossível, por tentar avaliar o indivíduo e o sistema. Acho que em breve vai evoluir apenas para o sistema de vestibular, o que será muito bom." Tessler defende, entretanto, que as instituições não tenham apenas o Enem como sistema de seleção e que alguns problemas sejam melhorados, como a redação. "A nota da redação não pode pesar tanto porque provoca ruídos."

No livro Português falado e escrito: o Enem em questão, a professora da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) Kátia Cilene Ferreira França avalia que a redação é o maior indício que o exame não ecoa a realidade dos alunos de escolas públicas. "O Enem se coloca diferente, mas é um vestibular como os outros. Ele não avalia todas as realidades", diz. Ela usou como base redações feitas por alunos de uma escola de São Luis, capital maranhense, e depois entrevistou os candidatos pessoalmente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.