''Acabaram com os meus sonhos''

Tânia Regina da Silva, enfermeira que perdeu 3 dedos por causa de uma bomba lançada dentro de ônibus, sofre com a crueldade dos torcedores

Evandro Fadel, CURITIBA, O Estadao de S.Paulo

10 Dezembro 2009 | 00h00

A enfermeira Tânia Regina da Silva, de 43 anos, não acompanha futebol, não torce por nenhum time e nunca entrou em um estádio para assistir a um jogo. No entanto, foi uma das vítimas da selvageria de torcedores do Coritiba, no domingo, quando o time caiu para a Série B. Atingida por uma bomba caseira, dentro de um ônibus, a pelo menos 20 km do Estádio Couto Pereira, ela perdeu três dedos de uma das mãos, corre o risco de ficar sem a audição no ouvido direito e precisará passar por cirurgia plástica no nariz. "Acabaram com meus sonhos."

Tânia não sabia que o Coritiba tinha empatado com o Fluminense por 1 a 1, nem sequer sabia que havia esse jogo ou que fosse decisivo para definir um time rebaixado. "Quando estou trabalhando não tenho tempo para nada, faço tudo com muita dedicação e, quando chego em casa, estou cansada", disse, por telefone. Somente depois, quando já estava no hospital, soube da confusão.

Ainda internada no Hospital Evangélico e sem previsão de alta, a enfermeira relembra os momentos de terror vividos dentro do ônibus que faz a linha Vila Macedo, em Piraquara, na região metropolitana de Curitiba, por volta das 20 horas de domingo. Tânia havia deixado o serviço - é enfermeira formada há dois anos pelo Centro Universitário Campos de Andrade (Uniandrade), curso que ainda está pagando, e atende alguns pacientes de forma particular. Passou pela casa da irmã e seguia no ônibus junto da mãe, de 59 anos.

Algumas pessoas apedrejavam os ônibus. "Foram várias pedras jogadas para dentro do ônibus", contou. Quando o veículo passava em uma lombada, uma bomba caseira caiu sobre seu colo. "Eu vi um fogo azul", afirmou. Mas o artefato rolou para baixo do banco onde estava sua mãe. Ao lado havia duas crianças e, em frente, duas idosas, além de outras pessoas que lotavam o ônibus. Ela pegou a bomba para jogar fora do coletivo, mas não deu tempo. "Saiu muita fumaça", lembrou. Apenas ela ficou ferida.

"Eles foram muito cruéis", disse Tânia, que criou sozinha dois filhos, de 18 e 24 anos. "Estou muito chorona, pois agora eu ia começar a viver." Segundo disse, muitos sonhos foram desfeitos. "Na minha vida sempre fiz projetos, mas, com menos de cinco minutos, acabaram com meu plano de vida. Vamos ver se alguém vai me contratar para um trabalho particular agora."

Ela perdeu os dedos polegar, indicador e médio da mão direita. Sem muitos recursos, está fazendo apelo para conseguir uma cirurgia plástica no nariz e contratar um advogado. "Nem em sonho vou conseguir pagar."

Um paciente permanece em estado grave no Hospital Evangélico, com traumatismo craniano. No Hospital Cajuru, um rapaz ainda está internado, em estado estável, por ter levado um tiro de bala de borracha na clavícula. A polícia continua ouvindo suspeitos e testemunhas para tentar identificar participantes do tumulto tanto dentro quanto fora do estádio.

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