Marcos de Paula/AE
Marcos de Paula/AE

Academia Brasileira de Letras sobe os morros do Rio de Janeiro

'Minha aposta é confiar no poder da palavra para tudo', diz a presidente Ana Maria Machado

Ubiratan Brasil - O Estado de S.Paulo,

05 Maio 2012 | 04h57

A linguagem fascina a carioca Ana Maria Machado, a ponto de escolher a literatura como profissão depois de passar pelo jornalismo impresso e radiofônico. Logo se tornou referência nacional na literatura infantojuvenil, ao lado de Ruth Rocha e Lygia Bojunga Nunes. Também escreveu livros para adultos, alcançando idêntico sucesso de crítica. O valor do conjunto da obra pode ser observado desde o ano passado, quando a editora Alfaguara iniciou o relançamento de seus títulos - até 2013, serão 20 livros (11 infantojuvenis), a maioria fora de catálogo. Ana é das autoras que mais vendem no País, com mais de 18 milhões de exemplares comercializados.

Eleita em dezembro de 2011 presidente da Academia Brasileira de Letras, ela prega, como meta, espalhar as letras em áreas carentes de leitura, como os morros cariocas. Aos 70 anos, Ana Maria, que já foi orientada pelo semiólogo francês Roland Barthes em sua tese de doutorado defendida na Sorbonne, além de ter sido vencedora do prêmio Hans Christian Andersen, equivalente ao Nobel de literatura para adultos, acredita na força da palavra, mesmo diante dos avanços tecnológicos que já cercam a literatura, como os e-books. Sobre esse e outros assuntos, ela conversou com o Sabático.

A senhora alterou algo nas obras agora reeditadas pela Alfaguara?

Não. Como foram relançadas pela Nova Fronteira há pouco tempo, revi com muita atenção, na época. E, mesmo quando revejo, não altero muito. Mas há curiosidades, como em O Tropical Sol da Liberdade: o livro estava na quarta edição, revisado por diversas pessoas, mas um detalhe escapou. Eu dizia que um personagem morava no 4.º andar de um prédio e, ao invés de escrever que não havia elevador, coloquei sem escada. Mas, enfim, o que passam são as pequenas coisas. Basicamente, não mudo o que escrevi.

Como observa hoje seu primeiro romance adulto, Alice e Ulisses, publicado em 1983?

Foi um livro que me deu muito trabalho. Na primeira versão, a narração era conduzida pela voz de Alice. Ao revisar, percebi que essa primeira pessoa feminina poderia conferir um tom confessional ao livro, que parecesse autobiográfico. Reescrevi, agora do ponto de vista masculino, reduzindo de 250 para 180 laudas. Mas, ao retrabalhar o texto, aquele ponto de vista não me parecia verdadeiro, pois não se sustentava como uma visão masculina. Percebi que não sabia como se sente um homem naquela situação. Aí, parti para uma nova versão, com um narrador externo. Novamente, reduzi o número de laudas, de 180 para 110. Foram quatro anos trabalhando nesse romance.

Aconteceu algo semelhante com seu primeiro livro de poesia, Sinais do Mar?

Não, ali o processo foi diferente, porque inicialmente não tinha intenção de publicar. Eu vinha escrevendo esses poemas ao longo de 20 anos até que a Ruth Rocha, que conhecia esse trabalho, me pediu um. "Você tem vários poemas sobre o mar e gostaria de ter um", ela disse, o que me alertou para essa particularidade. Foi ao reunir todos que notei um foco único, que era o mar.

O mar é presença marcante na sua escrita.

Sim, na minha vida. Nasci em Santa Teresa, que é um morro no centro do Rio, e, do meu apartamento, tinha visões diferentes da Baía de Guanabara. É uma ligação visceral e era inevitável que influenciasse minha obra. No livro O Mar Nunca Transborda, por exemplo, que talvez seja meu livro mais pretensioso por querer embarcar cinco séculos de história do Brasil, a ambientação é à beira-mar.

Pretensioso?

Pretensioso, não. Acho que é a primeira vez que usei esse adjetivo em relação a ele. O mais ambicioso - por conta de sua estrutura. O livro se divide em cinco partes, cada uma ambientada em um século com seu sotaque particular. Não são cinco séculos de história do Brasil, mas de história da língua. Como as pessoas se comunicavam, como construíam a linguagem. O primeiro capítulo é ambientado em uma tribo indígena antes da chegada dos europeus. Daí, corta para o escrivão dentro de uma nau - não é preciso dizer em que época se passa. O que me faz ser escritora é o interesse pela língua. A vontade de explorar o idioma, além do cotidiano, do factual. Nos casos dos livros infantis, explorar uma linguagem familiar brasileira, oralizante, coloquial.

Que é difícil.

Muito difícil, mas fascinante. É o que nos distingue de Portugal. Em determinados registros, nós nos lemos mutuamente com muita facilidade. Em um registro coloquial, familiar, oral, é mais difícil.

E como é hoje, com a internet e a linguagem cada vez mais fracionada da meninada?

Essa linguagem da meninada é muito mais uma anotação, uma maneira de escrever, do que a linguagem em si. E não vejo como diferente ou fracionada: é uma maneira de registrar. Telegrama sempre foi escrito de uma forma específica. Trabalhei em rádio e em jornal e tenho perfeita consciência da diferença entre uma e outra linguagem. São possibilidades de registros com diferenças na exploração da construção sintática.

A internet alterou conceitos de espaço em relação à escrita, não?

Sim. No rádio, eu sabia que uma notícia tinha de durar 10 segundos, o que me obrigava a ser sucinta e transformar esse tempo em um determinado número de linhas, para o locutor ler sem estourar. Já o jornal era o reduto do espaço. Hoje é o contrário: o jornal é a concisão e o espaço ilimitado está na internet.

Essa evolução tecnológica já faz a senhora, ao escrever para crianças, pensar em histórias com sons e imagens?

Não. Quando isso ocorrer, será uma adaptação feita por outra pessoa. Não me vejo fazendo isso nem escrevendo roteiro de filme baseado em livro meu, ou mesmo adaptação teatral ou televisiva, embora tenha vontade de explorar a graphic novel, que me atrai muito. Minha atração pela escrita é realmente a linguagem verbal.

Mas já se arriscou a fazer?

Não, pois não sei por onde começar. É como se tivesse de criar uma coreografia a partir de um de meus livros. Não quero pensar em que momento da história deva entrar o barulho de um rio: meu objetivo é que minhas palavras consigam fazer o leitor evocar o barulho do rio. Minha aposta é confiar no poder da palavra para criar qualquer coisa.

Por falar nisso e aproveitando sua Presidência da ABL: como vê a relação da Academia com a sociedade? É verdadeira a imagem de que se trata de um panteão fechado?

É um assunto complexo, com várias respostas. Primeiro, é um panteão e não tem como não ser, à medida que o País tem quase 200 milhões de habitantes e a Academia tem 40 pessoas. Ou seja, não existe proporcionalidade com a pujança cultural que o Brasil produz. Trata-se da consagração - ou deveria ser - de uma carreira e não há o que se discutir. Agora, a modernidade. Não é função da Academia ser moderna, atual ou de vanguarda. A Academia é uma instituição, portanto lenta, pesada. A vanguarda hoje está nos blogs, nos movimentos que ocupam os teatros em horários alternativos, no cinema, na imprensa alternativa. Uma cultura é feita de experimentalismo, que é feito pelos outros, e experiência, representada pela Academia que, sendo contemporânea da sociedade, obriga-se a refletir sobre as questões atuais.

E sobre sua gestão?

Entrei na Academia em 2003 e vivi cinco gestões até chegar à minha. Percebo uma linha de continuidade para manter uma atuação visível dentro da sociedade. Após várias tentativas, conseguimos a parceria de algumas empresas para projetos específicos, como conferências, bibliotecas, publicações, concertos de músicas de câmara, show de música popular, sessões semanais de cinema, leitura dramática de peças, tudo aberto ao público. Houve também um momento de quebrar a imagem de que vivíamos em uma torre de marfim. Acho que isso foi conquistado, pois já é evidente que a Academia não é mais um grupo fechado, com 40 velhinhos tomando chá e falando de seus pares. Agora, estou desejosa de continuar essa abertura atuando principalmente em duas frentes.

Quais seriam?

Chamaria a primeira de interna profunda e está começando de maneira piloto com comunidades recém-pacificadas do Rio. Antes, um detalhe: a escolha do Rio não é aleatória, pois é a cidade onde a Academia funciona e de onde não pode se mudar - é cláusula pétrea do nosso estatuto. Então, aqui estamos tentando trabalhar com populações carentes. Como janeiro e fevereiro foram meses de recesso, estou no início da minha gestão. Assim, no segundo semestre, terei condições de divulgar mais detalhes dessas parcerias que, agora, encaminham para um trabalho com bibliotecas populares e pontos de leitura na UPPs. Um acordo com a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) nos permite construir e reformar prédios, como a biblioteca no Morro Dona Marta. Caminhamos também para a Flupp, Festa Literária da UPP, que deve ocorrer em novembro. Organizamos ainda um concurso de contos para moradores e policiais das diferentes comunidades do Rio.

E a segunda?

Essa busca em fomentar a visibilidade da literatura brasileira no exterior e a constituição de uma fortuna crítica sobre os nossos escritores. Assim, estabelecemos parcerias com universidades estrangeiras, que passam a estudar obras de autores brasileiros acadêmicos, e manter críticos e especialistas estrangeiros se debruçando sobre essas obras, fazendo colóquios, conferências e, no fim, publicando material correspondente a esses estudos. É a formação de uma fortuna crítica fora. Já fizemos sobre Machado de Assis, Euclides da Cunha, João Cabral de Melo Neto e, este ano, o foco está em Jorge Amado.

A senhora vê a necessidade de a Academia ter sucursais em outras cidades?

É muito bom ter representantes de outros Estados, mas a questão de se abrir sucursais nunca foi discutida. Não sei se é necessário: entidades estaduais, como a Academia Paulista, são muito atuantes. Talvez o caminho natural seja o fortalecimento de uma rede de Academias locais, cada uma com a responsabilidade de manter os projetos de sua região. Mas sem um centralismo nosso. Seria pretensioso.

Que proveito pode se tirar de momentos de grande visibilidade mundial que se aproximam, como a Copa do Mundo, a Olimpíada e também com o fato de o Brasil ser o País convidado da Feira de Frankfurt de 2013?

Os tempos desses fatos são diferentes. Em termos midiáticos, devemos aproveitar, mas os fenômenos da literatura têm durações distintas: duram mais, mas custam a pegar. Já fomos antes país homenageado em Frankfurt, o que trouxe visibilidade midiática. Mas deveria ter sido acompanhado de outra coisa. Considero que a política de cultural brasileira de apoio à literatura no exterior não está mantendo (nem se preocupando em manter) leitores de literatura brasileira nas universidades. Ao contrário: esses postos vêm sendo fechados, sem apoio do governo brasileiro. Então, é difícil garantir a manutenção, pois o que segura um olhar atento do leitor sobre a literatura é a continuidade. Assim, a questão dos leitores nas universidades mereceria atenção mais cuidadosa da nossa política cultural no exterior. Já a política de traduções, que está se desenvolvendo com mais ênfase agora, é muito boa. Somente assim nossos livros podem circular no exterior. Agora, apenas participar de uma feira não me parece ser o suficiente. É bom em termos de vitrine, mas os interesses vão além disso.

O que poderia ser feito?

Há duas redes interessantes, uma na Espanha e outra na Itália, formadas por empresários locais, interessados no Brasil e em criar uma fundação cultural. Na Espanha existe a Fundação Cultural Hispano-Brasileira e, na Itália, a Fibra, Fundação Itália Brasil. Lá, reúnem-se brasilianistas dos mais diferentes setores, como educação, literatura e ciências humanas. Acredito que procurar o capitalista local para investir na cultura brasileira é uma saída muito interessante.

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