Joe Fletcher, NYT / FOTO
Joe Fletcher, NYT / FOTO

Aconchego em um cubo

Professor de feng shui constrói caixa de madeira para dormir e meditar no loft onde mora e dá aulas

Joyce Wadler, NYT / REPORTAGEM e Joe Fletcher, NYT / FOTO ,

22 de fevereiro de 2011 | 08h00

Houve uma época em que Liu Ming, professor de medicina chinesa tradicional e feng shui em Oakland, Califórnia, se dedicava a centenas de prostrações diárias como parte de sua prática do budismo tibetano - estamos falando de prostrações completas, nas quais a pessoa começa ereta, de pé, e termina com a cabeça contra o chão. Isto não seria possível hoje, pois a área de meditação de Liu fica sobre um cubo de 2,4 m de altura em seu loft. Se ficasse de pé, Liu bateria a cabeça no teto.

 

Para se movimentar pela área de meditação, ele precisa caminhar agachado. Mas o professor não vê problema nisso. "Numa tradicional sala de chá japonesa, o teto é tão baixo que é preciso entrar nela rastejando", diz. "A ideia é incutir humildade na pessoa."

 

Mas, num loft grande e aberto, que motivo haveria para uma pessoa construir um cubo contendo uma área para dormir e um escritório, além de uma sala de meditação? Para Liu, os espaços totalmente abertos têm um lado negativo: não existe aconchego. "O cubo evoluiu a partir da ideia de buscar aconchego e manter simultaneamente um espaço aberto e amplo como opção", diz. "E, por questões de feng shui, acrescentamos rodas. Assim, posso alinhá-lo a diferentes eixos, apontando a cabeça e o escritório em várias direções, para projetos distintos. Se estou escrevendo algo e sinto um bloqueio, posso me levantar e girar o cômodo."

 

Liu tem 63 anos e estuda o budismo tibetano e outras religiões orientais desde que era aluno de graduação da Universidade de Massachusetts, em Amherst - a qual abandonou, seguindo o espírito dos anos 60. E não é chinês, apesar do nome. Nascido em Boston, Charles Belyea é filho de pais franco-canadenses. O nome Liu Ming foi-lhe dado por um professor taoista que o "adotou" quando ele tinha 31 anos.

 

Vida própria. Liu e seu arquiteto, Toshi Kasai, passaram a considerar o cubo um objeto vivo e, de fato, ele tem um cordão umbilical - um cabo vermelho que o conecta a uma fonte de energia. "A ideia era dar a impressão de que o cubo estava sendo alimentado por algo", diz Kasai.

 

Liu se interessou pelo cubo há alguns anos, quando leu um artigo sobre um casal europeu que havia comprado um celeiro porque precisava de espaço para um ateliê, mas queria uma área separada para si e para os filhos. "Eles construíram um cubo de madeira compensada."

 

Faz sete anos que Liu mudou-se para o loft de 100 m² numa antiga fábrica, pelo qual paga um aluguel de US$ 1.650 mensais (cerca de R$ 2.750). Como o apartamento é usado como moradia e escola, no início, ele instalou uma tela de papel de arroz para separar o quarto e a área pessoal de meditação do espaço onde lecionava. Mas os visitantes sempre enfiavam a cabeça para ver o que havia do outro lado, o que o levou a buscar algo que lhe trouxesse mais privacidade.

 

Liu queria colocar as mesmas telas de papel para fechar o cubo, mas Kasai o convenceu a usar rolôs, que custaram US$ 630 (R$ 1.050). A planta sem paredes exigiu uma moldura de aço, que foi o elemento mais caro da peça: US$ 12 mil (R$ 20 mil); as chapas de madeira compensada, o acrílico utilizado nas janelas e a marcenaria custaram US$ 6.600 (R$ 11 mil), incluindo um armário embutido. A parte elétrica saiu por US$ 1.400 (R$ 2.300). Por seu trabalho, Kasai só cobrou uma taxa simbólica. "Ming é meu professor de feng shui e me ensinou a repensar os ambientes", diz. "Adoramos o conceito do cubo. Quando um arquiteto tem a chance de projetar algo tão ousado?"

 Tradução de Augusto Calil

 

 

 

 

A planta do cubo, com laterais de 2,4 m. Ao lado, Liu Ming no espaço de meditação, de onde pode ver o nascer do sol e as colinas de Oakland

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 O cubo garante privacidade a Liu Ming no loft de 100 m 2 onde recebe seus alunos. Dentro da peça, com rodinhas que permitem sua movimentação, há até espaço para um pequeno escritório

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.