Acordes de um pai para dois filhos

Petrobras Sinfônica lembra 10 anos de morte do fundador, Armando Prazeres

Pedro Henrique França, RIO, O Estadao de S.Paulo

28 Novembro 2009 | 00h00

Carlos e Felipe Prazeres ouviram, na infância, pouca música daquela que pode se considerar "normal". Sim, tiveram LP dos Menudos e do Lulu Santos. Mas foi só uma fase. Na escola, omitiam o gosto por Mozart. E depois das aulas, não iam farrear nas ruas do Alto da Boa Vista, zona norte do Rio. Com o pai, Armando Prazeres, passavam a tarde no salão nobre da Petrobras. E não que eles ficassem em uma espécie de creche do prédio executivo, nem que fossem exemplos de bons meninos (ambos foram reprovados mais de uma vez na escola).

Carlos e Felipe cresceram no palco, ao som de sinfonias e peças de Beethoven e outros grandes da música erudita. Explica-se: Armando Prazeres foi o fundador da Petrobras Sinfônica (que nasceu como Orquestra Pró-Música, em 72, e ganhou o nome da estatal, e seu amparo financeiro, em 87). A entrada precoce no universo erudito, porém, não foi nada forçado. "Meu pai era muito relax", dizem, quase em coro, os irmãos em uma noite abafada em Ipanema, após um chope e outro em um típico botequim carioca.

Carlos, hoje com 35 anos, e Felipe, com 33, deixaram de ser meros contempladores dos acordes da orquestra e das regências do pai com, respectivamente, 13 e 11 anos. O mais novo se encontrou logo no violino, enquanto Carlos oscilou entre o violoncelo até se firmar no oboé. Entraram na orquestra já no fim da adolescência. E encararam cedo os comentários maldosos de "olha lá, os filhos do fundador". Mas conquistaram o respeito (Felipe é atualmente spalla da orquestra, e Carlos o maestro-assistente do titular Isaac Karabtchevsky, à frente desde 2004). As lembranças se confundem num misto de saudade com o tom de superação, sempre tendo o pai como referência. Em janeiro de 99, Carlos e Felipe foram atingidos de frente pela violência do Rio. O pai havia sido encontrado morto no subúrbio (a versão apresentada de latrocínio até hoje os confunde). Com alguns meses de atraso - por conta da crise econômica -, Carlos e Felipe lembram, hoje e amanhã, os 10 anos de morte em concerto-homenagem na Sala Cecília Meireles, com a Orquestra Petrobras Sinfônica, dentro da série Portinari, e participações do soprano Bernardo Francisco Speranza (menino de 9 anos) e do barítono Marcelo Coutinho, além do Coral dos Canarinhos de Petrópolis. O programa tem obras de César Guerra-Peixe, Vaughan Williams e Fauré. E uma do pai: Improviso para Cordas, encontrada somente anos depois da morte de Armando. Na terça, tem nova récita, desta vez sem a presença de Felipe (e com uma peça de Claudio Santoro, em troca de Vaughan Williams).

"Não foi fácil passar por tudo isso", lembra Carlos. O "tudo isso" abarca uma série de desdobramentos que vieram após o trágico ano de 99. Com a morte de seu idealizador, a orquestra teve sua história ameaçada em virtude de acontecimentos que envolviam o apoio da empresa mantenedora, a Petrobras. E passou por atritos familiares - que hoje Carlos e Felipe evitam repercutir. Tudo isso, dizem, são etapas passadas, vencidas. "Pelo amor à música", pontua Carlos, repetindo quase que um mantra do pai.

Há dez anos, Carlos e Felipe ainda eram estudantes promissores da música. O primeiro havia acabado de ir estudar com a Filarmônica de Berlim (para Armando, a meca da música erudita). Felipe, por sua vez, estava em Curitiba para uma récita. Os dois viram Armando vivo pela última vez no aeroporto - um "até logo" que jamais pensavam que seria eterno. Em lados opostos do mundo, eles reagiram à morte com uma certa frieza, como se não acreditassem no que ouviam ao telefone. Eles queriam honrar seus compromissos, numa clara tentativa de fuga da realidade.

Hoje recordam de Armando como se ele tivesse dito ontem, em trânsito na Estrada Velha da Tijuca, ainda no início da adolescência: "Acho que já está na hora de vocês tocarem um instrumento." "Creio que meu pai nunca imaginou até onde íamos chegar", diz Carlos.

Ao serem questionados se ainda garotos não tiveram vontade de seguir outros caminhos, eles hesitam. "Ah, eu pensei em ser motorista daqueles carrinhos de aeroporto. Mas passou rápido", diz o mais novo. Carlos não conseguiu lembrar de nenhum outro sonho profissional. O pai não ensinou a eles a emoção do futebol: o time escolhido, o Vasco, foi influência dos tios por parte de mãe. De Armando, como se vê, ficou mesmo a vocação e a paixão pela música.

Ao prospectar o futuro, Carlos prevê o dia em que terão de se afastar para tirar o clima de "corporativismo". Vai ser difícil, eles sabem. Mas vão saber encarar numa "relax", como bem ensinou Armando.

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