Acúmulo de capital

Quando José Serra deixou o Ministério do Planejamento, em 1996, para concorrer à Prefeitura de São Paulo e perdeu a eleição sem conseguir chegar ao segundo turno, que acabou disputado por Celso Pitta e Luiza Erundina, todas as previsões eram de que não teria mais cacife para ser candidato majoritário.

Dora Kramer, O Estadao de S.Paulo

22 Dezembro 2009 | 00h00

Depois disso, ganhou uma eleição de prefeito, uma de governador e desde então vem mantendo a dianteira nas pesquisas de intenção de votos para presidente em 2010.

Heloisa Helena teve um desempenho aquém do imaginado na eleição presidencial de 2006 - 6,85% dos votos -, ficou três anos longe da vitrine do Senado e, até desistir da candidatura presidencial em 2010, ainda aparecia nas pesquisas na casa dos dois dígitos, com índices entre 11% e 15%.

Ciro Gomes concorreu a presidente em 2002, terminou a eleição em quarto lugar (11,97% dos votos) depois de ter vislumbrado a possibilidade de vitória e em seguida se tornado vítima do próprio temperamento. Passou a maior parte do governo Luiz Inácio da Silva relativamente longe do noticiário, primeiro como ministro e depois como deputado e, quando entrou nas pesquisas para 2010, chegou a ameaçar o segundo lugar da ministra Dilma Rousseff, com índices variando entre 14% e 25%, dependendo do cenário.

Geraldo Alckmin subiu ao pódio do segundo turno com Lula em 2006, conseguiu a façanha de sair da etapa final menor do que entrou - eleitoral e politicamente falando -, foi eliminado ainda no primeiro turno da eleição para prefeito em 2008 e hoje lidera com folga (50%) as pesquisas para governador de São Paulo.

O senador Aloizio Mercadante nos dois últimos anos enfrentou dissabores como a abstenção da votação do processo por quebra de decoro contra o então presidente do Senado, Renan Calheiros, e mais recentemente o episódio da revogada renúncia "irrevogável" à liderança do PT por causa do mesmo tipo de problemas, desta vez envolvendo o senador José Sarney.

Mercadante aparece em primeiro lugar na pesquisa Datafolha para o Senado em São Paulo.

O exemplo de Lula é um clássico. Perdeu três eleições presidenciais, sendo duas no primeiro turno, e ganhou outras duas, sendo uma na adversa condição da companhia de escândalos ocorridos no primeiro mandato e no decorrer (dossiê dos aloprados) da campanha propriamente dita.

Quando se preparava para disputar sua quarta eleição presidencial, de 2002, Lula enfrentava o descrédito de muitos correligionários e o menosprezo dos adversários, certos de que estaria mais uma vez fadado ao fracasso.

Em comum entre esses casos há o acúmulo do capital eleitoral conquistado em disputas passadas, mostrando como o peso da presença de um político em eleições é importante para a construção do patamar a partir do qual projetará os desempenhos futuros. Pelos dados, os fracassos contam menos que a trajetória de presença na cabeça do eleitor.

Isso, pelo menos, na largada.

Um derrotado de ontem pode ser o recompensado de amanhã. Mas, para o estreante, é tudo mais difícil. Sofre a desvantagem da dúvida e da hesitação naturais em relação ao desconhecido.

Pode residir aí uma explicação para a ainda pífia performance da senadora Marina Silva (faz o maior sucesso até no exterior, é figura respeitadíssima, mas disputou só uma eleição e pelo Acre) nas pesquisas se comparada ao impacto provocado pelo anúncio de sua saída do PT e filiação ao PV para se candidatar à Presidência.

Provavelmente justifica-se por aí a vagarosa caminhada da ministra Dilma Rousseff que, segundo prognósticos feitos por especialistas, por aliados e adversários políticos, chegaria ao fim do ano com 30% nas pesquisas. Está com 23%. Se vai ou não deslanchar, só o começo do jogo de verdade dirá. Assim como vai dizer se a vantagem de José Serra é só produto da memória ou se é de fato fruto da vontade do eleitor.

Posto mesmo está que na política a persistência pode ser mais vantajosa que a invenção de personagens.

E demonstrada também fica a importância de os partidos interessados em pilotar a nave do poder, e não fazer parte dela sempre como passageiros, disputarem eleições.

Presidenciais ou estaduais. O PMDB, por exemplo, já desistiu de um projeto nacional, mas não abriu mão de concorrer aos governos dos Estados porque só com isso pode levar adiante sua política de fortalecimento regional e representação forte no Congresso.

Sem candidatos majoritários, some. Não comanda máquinas estaduais nem elege parlamentares federais.

É o ponto da discórdia entre PT e PMDB. Em 2010 ambos querem o mesmo. Ocupando um só espaço em aliança de palanque único nos Estados, um dos dois fracassa em seu intento. Por isso o PMDB briga com o PT, o PT resiste ao PMDB e ficam loucos para brincar separados.

Desigual

A ministra Dilma o presidente desautoriza, mas Serra e Aécio Lula chama de craques. Não é justo.

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