Administremos o sucesso

Disse o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, que agora "o problema do Brasil é administrar o sucesso". Essas palavras, vindas de um dos homens públicos mais competentes de nosso país, significam a convocação de uma formidável "corrente pra frente", capaz de fazer a população brasileira, irmanada e solidária, enfrentar coesa a dificílima tarefa de administrar o sucesso, com todo o penoso esforço e extenuante dedicação que isso implica. Então, este é o momento de encontrarmos um pequeno alívio para a pesada carga, refletindo sobre alguns campos em que ainda não fomos atingidos pelo problemático sucesso - o que nos deixará, sem dúvida, em situação mais confortável e tranquila.

Mauro Chaves, O Estadao de S.Paulo

21 de novembro de 2009 | 00h00

Ainda não fomos atingidos pelo problemático sucesso no campo da infraestrutura. Obras essenciais para o desenvolvimento do País vêm sendo longamente retardadas, graças à má qualidade dos projetos, ou ao desrespeito às leis ambientais, ou ao não-cumprimento de exigências do Tribunal de Contas da União (TCU). Assim, entre 2004 e 2008 o governo federal não conseguiu investir mais do que 30% do previsto no Orçamento para o setor, o que significa R$ 20 bilhões a menos do que era destinado à infraestrutura. Em consequência, 70% das rodovias pavimentadas federais se tornaram péssimas e, sobretudo, assassinas; a ineficiência dos portos continuou encarecendo, pesadamente, as exportações e importações; e no campo da energia, ou os raios, ou os curtos-circuitos, ou o "excesso de água da chuva", ou os hackers, ou o diabo a quatro fizeram com que quem era mãe do PAC se tornasse a madrasta do APAG (e "assunto encerrado, minha filha").

Ainda não fomos atingidos pelo problemático sucesso no campo do desenvolvimento humano (IDH), pois nisso não ultrapassamos o 75º lugar, assim como não superamos a 81ª colocação no índice de expectativa de vida. No campo do respeito à vida, cabe registrar que continuamos a bater recordes mundiais de produção de cadáveres no trânsito - cerca de 40 mil anuais -, ao mesmo tempo que nossa taxa anual de homicídios intencionais é de 25,7 mortes por cada 100 mil habitantes, enquanto esse índice nos EUA é de 5,8, na Argentina é de 5,2, na Palestina é de 4, na Índia é de 3,4, na China é de 2,3, na Inglaterra é de 2, no Chile é de1,9, em Israel é de1,8, na França é de 1,5, na Itália é de 1,2, na Espanha é de 1,1, na Alemanha é de 0,98 e no Japão é de 0,68.

Agora, para que não tenhamos tanta dificuldade em administrar a difícil fase de sucesso que atravessamos - conforme a percuciente observação do presidente do Banco Central - precisamos avaliar melhor as circunstâncias em que têm ocorrido algumas melhorias de posicionamento em pesquisas estatísticas. Por exemplo, melhoramos nosso índice de desmatamento da Amazônia, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) - por sinal, o mesmo desqualificado pelo ministro de Minas e Energia por ter afirmado que nenhum raio caiu nas linhas de Itaberá na noite do apagão. O Inpe registrou a mais significativa queda desde o início da medição: entre agosto de 2008 e julho de 2009 foi devastada "apenas" a mata de uma região com 7.008 quilômetros quadrados, ou seja, tamanho igual a 4,6 vezes a cidade de São Paulo. Então, dá para administrar esse sucesso...

Outro sucesso que, sem dúvida, dá muito bem para administrar é o da melhoria de nossa posição no mundo (segundo a Transparência Internacional) quanto à corrupção. Tiramos nota 3,7 (num total de 10), o que nos coloca no 75º lugar. Quer dizer, no mundo há 74 países menos corruptos do que o nosso. Será isso fantástico? Mas há um detalhe importante: o que é aferido na pesquisa é a "percepção de corrupção" que os próprios brasileiros têm em seu país. Não estará essa percepção já bastante "amaciada", de tal forma as bandalheiras, falcatruas e maracutaias se têm multiplicado e banalizado "como nunca antes na História deste país"?

Também não fomos atingidos pelo problemático sucesso no campo da educação. Apenas 25% dos brasileiros com mais de 15 anos têm pleno domínio das habilidades de leitura e escrita. Quer dizer, apenas um em cada quatro brasileiros consegue compreender, totalmente, as informações contidas num texto e relacioná-las com outros dados. Não menos que 38% dos cidadãos brasileiros podem ser considerados analfabetos funcionais. E se, por uma descoberta jornalística, se comprovou a fraude no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), quantas outras fraudes não terão passado despercebidas em tantos outros exames escolares, já que o esforço do aprendizado e o mérito do conhecimento têm sido sistematicamente desmoralizados, "como nunca antes na História deste país"?

Bruno Ferreira Campos, de 34 anos, sua mulher, Viviane Ferreira Campos, de 33, e a filha do casal, Gabriela Gonçalves Campos, de 7 meses, voltavam de férias pela estrada Rio-Teresópolis (rodovia federal BR-116/RJ) quando, à altura do km 90, caiu uma barreira que soterrou os três - só escapando da morte Maurina, mãe de Viviane. Abre o site da administradora da rodovia o seguinte texto: "Bem-vindo à concessionária Rio-Teresópolis. Você vai encontrar aqui informações sobre os serviços que colocamos 24 horas por dia à sua disposição, sempre visando seu conforto e segurança."

E está no site: "... as obras ora em licenciamento objetivam melhorar a capacidade de serviço da rodovia e, portanto, a segurança e o conforto para os usuários." Eis espelhado tudo o que significa a diferença entre o pretendido e o feito, o anunciado e o realizado. Vendo a foto da bela família enterrada viva não será difícil administrarmos o sucesso.

Mauro Chaves é jornalista, advogado, escritor, administrador de empresas e pintor E-mail: mauro.chaves@attglobal.net (www.artestudiomaurochaves.wordpress.com)

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