Advogado diz que militares sabiam do destino de jovens no Rio

João Tancredo, da defesa dos familiares, chegou a essa conclusão com base nos endereços dos acusados

Pedro Dantas, O Estado de S.Paulo

27 de junho de 2008 | 19h12

Os endereços dos militares envolvidos na entrega de jovens do Morro da Providência a traficantes do Morro da Mineira - todos moradores em áreas de risco - mostram que eles sabiam exatamente qual seria o destino dos jovens nas mãos dos criminosos. A afirmação é do advogado de defesa das mães das vítimas, João Tancredo, presidente do Instituto dos Defensores dos Direitos Humanos. "Tenho pena da tragédia que também se abateu sobre a vida deles, mas a origem de todos indicam que eles conheciam bem a vida nestas comunidades", disse o advogado, após ter acesso ao inquérito enviado à Justiça Federal.   Veja também: Após acareação, situação de tenente envolvido em mortes piora Procuradoria denunciará 4 militares por homicídio no Rio Mutirão acaba com disputa entre prefeitura e Estado em obras Polícia diz ter identificado assassinos dos jovens da Providência   O inquérito policial mostra o contraste entre o desespero das famílias e a alegada alienação dos militares que em maioria sustentam em seus depoimentos que não imaginavam o que aconteceria com as vítimas. Alguns chegam a usar a mesma expressão nos depoimentos para afirmar que, apenas após entregar os jovens, fizeram "uma leitura mental" de que se tratavam de traficantes.   A tropa de 10 homens é unânime em atribuir ao tenente Vinícius Ghidetti de Moraes Andrade, de 25 anos, a ordem de levar os jovens para o Morro da Mineira. No entanto, o soldado Rafael Cunha da Costa Sá contradiz os colegas de farda e admite que viu os jovens sendo espancados enquanto "o tenente Vinícius voltava para o caminhão rindo".   Em depoimento à polícia, o tenente é o único a assumir a ação. Em recente diligência a residência do oficial, em Inhaúma (Zona Norte) a Polícia Civil encontrou fotos dele sem farda fazendo sinais de referência a facções criminosas. Vizinhos afirmaram que em duas quitinetes no mesmo terreno onde mora o tenente estariam refugiados traficantes da favela Águia de Ouro, que ali teriam se refugiado após serem expulsos pela milícia.   Os demais militares alegam em seus depoimentos que "apenas cumpriam ordens". Morador da Favela Parque Beira-Mar, em Duque de Caxias, (Baixada Fluminense) o sargento Leandro Maia Bueno, de 24 anos, confessa que negociou com traficantes a entrega dos jovens, mas alegou que apenas "depois soube que se tratava de comunidade dominada por traficantes e passou a imaginar o pior".   Morador de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, o outro sargento da tropa, Renato de Oliveira Alves, de 22 anos, contou em seu depoimento que interpelou o tenente e alegou ao superior que "aquilo daria uma m... danada". Morador do mesmo município, o soldado Eduardo Pereira de Oliveira acusou o oficial de impedir a fuga de um dos jovens da favela com uma gravata e de colocar uma arma na cabeça da vítima. Ele diz que temeu "avisar a superiores e que aquele grupo acabasse fazendo com ele o que fez com as vítimas".   Missa   Nesta quinta, as mães de duas das vítimas do Morro da Providência participaram da missa em memória de um ano das 19 mortes no Complexo do Alemão ocorridas durante a megaoperação policial no ano passado no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio. Uma carta aberta a população classificou como execuções os 1.330 "autos de resistência" registrados em 2007 e acusou o governo estadual de genocídio, racismo, tortura e fascismo. "Para esta sociedade hipócrita é um favor que esta polícia tire nossos filhos negros do mundo", declarou após a missa a educadora social Mônica Cunha, de 42 anos, cujo filho morreu em um suposto auto de resistência em 2006.   O deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ) anunciou que na quinta-feira o ministro da Defesa, Nélson Jobim, prestará esclarecimentos sobre a presença do Exército no Morro da Providência em uma audiência pública no Congresso Nacional das comissões de Segurança Pública. Direitos Humanos e Defesa Nacional. "Queremos explicações sobre licitações, antecipações de recursos, contratação de firmas e saber qual era o papel do Exército no Cimento Social", disse Alencar.

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