Afeganistão é teste de resistência

No que se refere ao Afeganistão, os radicais apoiam o pedido do general Stanley McChrystal de um reforço de 40 mil soldados, ou mais, enquanto que os pacifistas procuram estabelecer uma distinção entre o Taleban e a Al-Qaeda para justificar sua rejeição a essa posição extremista, e no final, nos retirarmos do país. Correto? Não, errado. Eu me considero um radical no caso do Afeganistão, mas por esse motivo sou cético quanto ao envio de um grande numero de soldados porque isso pode apoiar a ideia de que existe uma solução rápida para um país que é o quinto mais pobre do mundo, com uma expectativa de vida de 44 anos e dilacerado por três décadas de guerras. No Afeganistão, 30 anos de combates demandam agora 30 anos de parceria por parte dos Estados Unidos.

Roger Cohen*, INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE, O Estadao de S.Paulo

21 de outubro de 2009 | 00h00

Esse jogo envolvendo o números de soldados, no qual o presidente Barack Obama parece vacilar, na verdade é uma distração. Números são menos importantes do que a resistência, detalhes que importam menos do que o projeto total. A palavra que precisa ser dita pelo presidente em breve é apenas esta: resistência. O Afeganistão, como ele tem afirmado e não deve desdizer, é uma "guerra necessária".

Antes de tudo, é importante acabar com alguns mitos. Fala-se muito que em breve essa guerra será a mais longa da história americana, mas os EUA permaneceram muito mais tempo no Iraque. E o número de soldados no Iraque ainda é duas vezes maior do que no Afeganistão. No sul do país - onde há uma conjunção crítica do Taleban oriundo de Kandahar, traficantes de drogas e um governo corrupto - a guerra dos EUA tem somente alguns meses.

Na Província de Anbar, no Iraque, os EUA levaram anos para perceber que os xeques eram tratáveis ou poderiam ser acessíveis com alguns agrados - e assim arquitetar o "despertar sunita". O trabalho feito para o "despertar pashtun" apenas começou.

Um segundo esclarecimento importante é que o Taleban e a Al-Qaeda não são movimentos distintos. O mulá Muhammad Omar, líder do Taleban, não despertou repentinamente para a perfídia de Osama Bin Laden, da Al-Qaeda. Existem muitos talebans malvados; mudar de posição no Waziristão nunca foi um um grande negócio.

A verdade é que o teatro Afeganistão-Paquistão não abrange apenas dois países, mas três: Afeganistão, Paquistão e "Patshunistão". Neste último, que se estende pela fronteira afegã e paquistanesa, equivalente à Linha Durand, de 2.500 quilômetros, circulam os insurgentes do Taleban e da Al-Qaeda.

Isso não quer dizer que não existe um Taleban com "t" minúsculo que pode ser cooptado, mas significa que o Taleban com "T" maiúsculo continua sendo a maior ameaça estratégica para os Estados Unidos.

Uma terceira explicação é que não se pode apenas decolar, iluminar as "pegadas" aliadas e eliminar os terroristas. São necessárias bases afegãs para os "drones" operarem. É crucial que se posicione o serviço de inteligência na fronteira, ou próximo dela, para identificar alvos valiosos. A luta pelo Patshunistão tem de ser ganha em solo, onde está a contrainsurgência.

Mas, como disse o lúcido general McChrystal, a situação vem "deteriorando" e um fracasso é possível. Portanto, o que fazer? Sim, os EUA necessitam de um parceiro confiável no governo afegão e não teve um. O presidente Hamid Karzai - supondo que permaneça no cargo - tem de atender a algumas exigências não negociáveis: melhores governantes; autoridades não envolvidas com o narcotráfico: um programa transparente para atender o Taleban com "T" minúsculo; e uma vigorosa cooperação com a polícia e o Exército afegãos.

Como o general McChrystal vem insistindo, a estratégia dos EUA precisa ser repensada independentemente das ações do governo afegão.

O essencial é uma economia de forças com o máximo efeito. É impossível tentar controlar o país inteiro ou ir à caça dos talebans nas cavernas. Em vez disso, devemos nos concentrar nos distritos modelo em áreas conflituosas do Pashtunistão. Oferecer aos afegãos de casas de barro alguma coisa em que possam acreditar - pelo menos tribunais eficientes, uma polícia motivada e crédito fácil.

Muitos afegãos ainda apoiam a presença americana. Um compromisso imediato com a resistência, um aumento mínimo de tropas suficiente para transmitir essa mensagem, é isso que precisamos da parte do presidente Obama. Mais do que um número específico de tropas, o que McChrystal vem pedindo é "paciência, disciplina, firmeza e tempo". O senhor o está escutando, presidente?

*Roger Cohen é especialista em diplomacia

A MELHOR ESTRATÉGIA

Neste artigo, Cohen afirma que o presidente Barack Obama, em busca de uma estratégia para o Afeganistão, não deve tentar controlar o país inteiro, mas aproximar-se dos afegãos da etnia pashtun que vivem na área sob influência do Taleban

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