Agronegócio pede rapidez no pacote para desafogar Centro-Oeste

Agricultores do Centro-Oeste, a principal região produtora do Brasil e uma das que mais sofrem com a infraestrutura deficitária, avaliaram que o pacote do governo desta quarta-feira finalmente coloca a logística como estratégica para o desenvolvimento do país, mas cobraram agilidade na implementação das obras.

GUSTAVO BONATO E ROBERTO SAMORA, Reuters

15 de agosto de 2012 | 18h55

"Estamos esgotados de ouvir planos. Quero é ver as obras. Não adianta dizer que tem plano de 133 bilhões de reais para três décadas", disse Carlos Fávaro, presidente da associação que reúne produtores da soja de Mato Grosso (Aprosoja), estado que respondeu por cerca de um terço da produção da oleaginosa do Brasil na última safra.

O plano anunciado pelo governo federal prevê investimentos totais de 133 bilhões de reais em rodovias e ferrovias ao longo dos próximos 25 anos, e pode ser fundamental para o Brasil ampliar sua participação na agricultura global, que hoje já é de destaque, mas muito aquém do potencial.

Ferrovias com custos competitivos e sem monopólio, como quer o governo, poderiam aumentar expressivamente a competitividade de uma região que tem grande peso no agronegócio brasileiro. Mas outras áreas do país também seriam beneficiadas.

Atualmente, segundo dados do setor privado, mais da metade da soja exportada pelo Brasil segue até os portos por caminhões, que dificilmente deixam de enfrentar estradas esburacadas, especialmente no Centro-Oeste, o que eleva os custos.

O setor agrícola tem sido prejudicado há anos pela falta de investimentos em logística e perde 4 bilhões de dólares por ano devido à ineficiência da infraestrutura e logística, segundo a Aprosoja Brasil, que quer investimentos também em hidrovias.

"Notou-se um esforço do governo com o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) 1 e 2, mas passaram anos e não se conseguiu implementar. Com essa iniciativa de concessão para iniciativa privada temos esperança de mais agilidade com as obras", disse à Reuters Nelson Piccoli, diretor financeiro da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato).

Nas rodovias, o governo planeja que os investimentos sejam concentrados em duplicações, contornos e travessias, totalizando 7,5 mil quilômetros. Os investimentos em ferrovias, modal de transporte considerado mais econômico que o rodoviário, serão concentrados na restruturação e no aumento da capacidade da malha --o plano do governo prevê a construção e reconstrução 10 mil quilômetros de ferrovias.

Para o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Glauber Silveira, o ponto positivo do pacote é o fato de que "finalmente" o governo coloca na sua agenda estratégica a logística e infraestrutura para o escoamento da produção de grãos.

"Nós percebemos que a presidente (Dilma Rousseff) também se cansou de sucessivas prorrogações de prazos de entrega das obras e agora fixou metas e prazos, para que as obras saiam do papel", comentou Silveira em nota.

OBRA FUNDAMENTAL

Um dos projetos que mais interessam aos produtores é a Ferrovia de Integração Centro-Oeste (Fico), que está incluída no pacote.

O projeto é de que a ferrovia saia de Lucas do Rio Verde (MT) --um dos principais municípios agrícolas do Brasil e situado na mais importante área produtora de Mato Grosso-- e cruze a Ferrovia Norte-Sul em Uruaçu (Goiás), corte o Distrito Federal e Minas Gerais e siga rumo ao litoral.

Segundo Fávaro, a expectativa é de que a conclusão do projeto da Fico seja acelerada e que até maio de 2013 ocorra a licitação.

"Mas somos contra o monopólio", acrescentou ele, criticando o sistema ferroviário atual. "É preciso ter um operador e vários transportadores, garantindo competitividade. O marco regulatório precisa avançar neste sentido", sugerindo um modelo em que uma empresa controle as linhas férreas e armazéns, com outras operando as composições.

Apesar das dificuldades logísticas --mas com uma agricultura moderna--, Mato Grosso deverá colher safra recorde de soja na próxima temporada (2012/13), estimada em mais de 24 milhões de toneladas, na esteira dos preços recordes da oleaginosa.

O transporte da produção de Mato Grosso ocorre principalmente por meio de caminhões que percorrem a BR-163, rumo aos portos de Santos e Paranaguá (PR), num trajeto de mais de 2 mil quilômetros, uma logística considerada muito cara pelos agricultores.

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