Fernando Llano/AP
Fernando Llano/AP

Ai de ti, Venezuela

Para cientista político venezuelano, a eleição apertada (e ainda por se confirmar) de Nicolás Maduro expõe as fragilidades de um país que vacila no vácuo deixado por seu líder carismático

IVAN MARSIGLIA, O Estado de S.Paulo

20 Abril 2013 | 16h11

Pouco adiantaram as imagens incessantes do funeral do grande líder e das lágrimas da população que o venerava na TV. Também não foi suficiente o anúncio da ideia, depois abandonada, de embalsamá-lo à maneira de Lenin, na Praça Vermelha, e de Mao Tsé-tung, em Pequim. O poder que emanava do carismático Hugo Chávez não se incorporou de igual maneira em seu escolhido sucessor, Nicolás Maduro. O recém-eleito presidente da Venezuela viu sangrar, em menos de um mês, uma diferença inicial de quase 20 pontos em relação ao candidato adversário, Henrique Capriles, para terminar vencendo o pleito por 50,66% a 49,07% – com menos de 2 pontos de vantagem.

A combinação entre os abusos do chavismo e a frustração de uma oposição derrotada sucessivamente desde 1999 explodiu nas ruas, em protestos que causaram sete mortos e dezenas de feridos. Diante do acirramento dos ânimos, Capriles, que após o anúncio do resultado não reconheceu a eleição de Maduro e exigiu a recontagem "voto por voto", pediu que seus partidários não participassem de uma manifestação em frente ao Conselho Nacional Eleitoral (CNE). Mas o panelaço insistente nas ruas fez com que, na quinta-feira à noite, o colegiado decidisse por uma nova auditoria nas urnas, eletrônicas em quase sua totalidade, como no Brasil.

Para o cientista político venezuelano Iñaki Sagarzazu*, a decisão do CNE – que além de uma presidente nomeada em pessoa por Hugo Chávez em 2006, tem "quatro dos cinco membros pró-governo e apenas um com voz dissonante, pró-oposição" – sinaliza a fragilidade da vitória do candidato chavista. E também que, mesmo que a nova auditoria confirme o resultado das urnas, Maduro terá de "reconhecer a outra metade do país" e dialogar com Capriles.

De ascendência basca, Sagarzazu graduou-se em Caracas em 2004 e obteve seu Ph.D. no Departamento de Ciência Política da Universidade de Houston, em 2010. Trabalhou por dois anos no Centro Experimental de Ciências Sociais do Nuffield College, na Universidade de Oxford, e atualmente leciona política comparada na Universidade de Glasgow, na Escócia.

Na entrevista a seguir, ele mostra como parte significativa do eleitorado venezuelano oscila a cada disputa entre o governo e a oposição, descarta as denúncias de golpe feitas por Maduro como tentativa de trazer de volta os apoiadores perdidos e afirma que, embora seja cedo para se anunciar o epílogo do chavismo, o cenário que se desenha para o herdeiro de Hugo Chávez é "o pior possível".

Como entender a vitória apertada de Nicolás Maduro, apesar do impacto da morte recente de Chávez e do uso pesado da máquina do governo na campanha?

Iñaki Sagarzazu - Foi uma vitória muito magra porque Maduro perdeu 16, 17 pontos porcentuais em questão de um mês. Imediatamente após o falecimento de Chávez, as sondagens mostravam que seu escolhido largara com uma vantagem de 15 a 20 pontos sobre Capriles. O que houve? Muitas coisas, a começar pela situação econômica, que está péssima, os apagões energéticos, uma crise que o povo sentiu no bolso. Além disso, houve uma crítica sobre a maneira como o governo manejou a situação toda da doença de Chávez. Essa crítica se manifestou tanto fora quanto dentro do chavismo. Por sua vez, Capriles teve a habilidade de atribuir a culpa a Maduro.

Nas eleições de 2012, Capriles venceu só em Mérida e Táchira. Este ano, levou a melhor em sete Estados venezuelanos. A oposição afinou seu discurso?

Iñaki Sagarzazu - Sim. Mas pesa sobretudo o fato de que, pela primeira vez, ele pôde contrastar-se com alguém não tão carismático quanto Chávez. E a ausência do grande líder da situação também permitiu que Capriles pudesse bater com mais liberdade no governo. Até então, o amor do povo por Chávez servia como anteparo aos problemas que muitos já viam nas ações do governo. Capriles sai com grande capital político das eleições, antes das quais ninguém imaginava que ele pudesse ir tão longe. Mas precisa tomar cuidado com seus próximos passos.

Numa campanha com acusações mútuas, incluindo insinuações de homossexualidade e conversas com passarinhos, surpreendeu o forte comparecimento às urnas, de 79%. Que balanço o sr. faz das eleições?

Iñaki Sagarzazu - Creio que os venezuelanos reafirmaram sua grande disposição em participar do processo eleitoral, o que é positivo. Mas também ficou evidente um velho problema do país: o visível abuso e o favorecimento ao candidato do governo por parte de instituições e órgãos de fiscalização que deveriam zelar pela imparcialidade das eleições. Houve muita publicidade da campanha de Maduro disfarçada de comunicação de governo, enquanto o CNE fazia vista grossa. Inclusive a campanhas produzidas por ONGs comprometidas com o chavismo, que claramente faziam a apologia do candidato do governo, sob o pretexto de divulgar a importância do ato de votar.

O sr. acredita que as eleições possam ter sido fraudadas?

Iñaki Sagarzazu - Não tenho nenhuma evidência concreta para dizer que houve fraude.

O fato de a presidente do CNE, Tibisay Lucena, doutora em sociologia nomeada em 2006 para dar credibilidade ao processo eleitoral, passar a ser vista com o distintivo típico dos militantes chavistas no braço esquerdo compromete sua imagem de isenção?

Iñaki Sagarzazu - Esse é um dado muito claro: quatro dos cinco membros do CNE são pró-governo e apenas um tem voz dissonante, pró-oposição. Uma desproporção que se repete em diversos outros órgãos de poder, encarregados ou não da fiscalização das eleições. O fato é que sempre houve alguma forma de abuso na condução do processo eleitoral. O que ocorreu desta vez foi que a falta de isenção se deu de forma mais disparada que de costume. Também porque tivemos uma campanha muito curta, após a morte de Chávez.

No início da semana, Capriles não admitiu a vitória de Maduro e exigiu recontagem de votos. Depois, pediu que seus partidários não participassem de uma marcha em frente ao CNE, dizendo: ‘Não caiamos no jogo violento do governo’. Como entender esse recuo?

Iñaki Sagarzazu - Em primeiro lugar, do ponto de vista do capital político que conseguiu, Capriles não podia aceitar a derrota imediatamente. Dentro do comando político da campanha havia o entendimento de que podia ter havido algum tipo de manipulação, mas havia também uma oportunidade de desgastar logo de saída o vencedor Maduro. Então, o que ele acabou solicitando formalmente dias depois era que se fizesse a recontagem de votos e se adiasse a declaração do resultado. Foi uma solicitação válida, a qual ele tinha todo o direito de fazer ao CNE. É preciso entender que há muita frustração acumulada ao longo de todos esses anos na oposição. E que há um setor do eleitorado que desde 2004 oscila, votando algumas vezes com o governo, outras com a oposição. O recuo de Capriles para mim significa que ele entendeu que um acirramento da violência só interessaria ao governo, que tem o controle das informações e dos órgãos de segurança. Num cenário em que a oposição pareça violenta, o capital político recém-adquirido por Capriles pode se deteriorar.

Países com relações próximas a Caracas, como Rússia, China, Irã e o próprio Brasil reconheceram de imediato a vitória de Maduro. Já a Casa Branca e a OEA disseram que seria ‘recomendável’ a recontagem de votos. Por fim, o CNE decidiu por uma nova auditoria. Ela será suficiente?

Iñaki Sagarzazu - Ficou claro, desde o início da crise, que só algum tipo de confirmação da vitória poderia solucionar esse impasse. Mas uma recontagem propriamente dita talvez não seja necessária. Na Venezuela, 90% das seções eleitorais são automatizadas e, no dia das eleições, se faz uma auditoria em 52% dessas máquinas. Como a auditoria prévia não apontou problemas, é difícil que haja divergência entre os votos contados pelas máquinas e os dos recibos emitidos por elas. Por uma questão de comunicação, o comando de campanha de Capriles foi à TV pedir a "recontagem voto por voto". Mas se a nova auditoria anunciada pela CNE não apontar problemas vai ficar muito difícil para a oposição continuar no caminho do não reconhecimento do resultado. No entanto, não seria a primeira vez que ela o faria: em 2004, a oposição não reconheceu o resultado do referendo que confirmou a permanência de Chávez no governo.

Maduro denunciou uma suposta mobilização de militares visando a um golpe de Estado e seu chanceler, Elias Jaua, chegou a comparar os protestos à ‘Noite dos Cristais’ – em referência ao ataque contra sinagogas e comércios judeus por militantes nazistas em 1938 na Alemanha. Há risco de golpe?

Iñaki Sagarzazu - Para mim, esse é apenas um discurso político do governo para tratar de "empatar a partida". Neste momento, não vejo nenhuma possibilidade real de golpe de Estado – salvo se fosse cometido por alguma subdivisão dos chavistas contra Maduro. Não vejo na oposição hoje a capacidade de promover um golpe de Estado.

Nem o tal ‘autoatentado’ contra Capriles, que Maduro voltou a denunciar?

Iñaki Sagarzazu - Já sabemos como os partidários de Chávez às vezes inventam coisas, e essa é mais uma dessas, em minha opinião. Penso que a leitura do governo diante dos resultados eleitorais foi a seguinte: "Precisamos fazer alguma coisa para trazer de volta uma parte dos eleitores que passaram para o lado de Capriles". E a maneira de fazer isso é criando um certo alarmismo.

Mas a comunidade internacional segue dividida: uma reunião extraordinária da Unasul foi convocada para apoiar a posse de Maduro, enquanto o secretário de Estado americano, John Kerry, insistia na tese da recontagem, provocando uma reação irada do presidente eleito contra seu ‘intervencionismo’.

Iñaki Sagarzazu - Se a Unasul chamasse a um diálogo entre as partes ou solicitasse uma recontagem, aí sim daria um sinal claro de que se preocupa com a Venezuela. Já a fala de Kerry mais atrapalha do que ajuda – só serve para que o governo mobilize sentimentos nacionais contra a ingerência dos EUA. Teria sido melhor não dizer nada e exercitar uma diplomacia silenciosa.

Tudo contabilizado, Maduro começa seu mandato como um ‘pato manco’, como se diz? Ele terá forças para enfrentar o cenário político conturbado que se desenha?

Iñaki Sagarzazu - A verdade é que Maduro começa seu mandato em situação muito difícil. Perdeu 17 pontos de seu apoio eleitoral orignial, tem de lidar com um país quase em estado de calamidade política e, ademais, enfrenta uma situação econômica incontrolável. Ele terá que se mover com muito cuidado no governo. Digamos que, uma vez confirmada sua vitória, Maduro tem dois caminhos a tomar: reconhecer a outra metade do país e dialogar com ela ou tomar o caminho da radicalização. O segundo caminho é arriscado e, uma vez tomado, impossível de voltar atrás. De modo que acho mais provável que Maduro se reúna com Capriles e discuta com ele uma agenda comum para o país.

Estamos assistindo ao epílogo do chavismo? O que já se pode vislumbrar no futuro político da Venezuela?

Iñaki Sagarzazu - É cedo para se declarar a morte do chavismo. Está aí a Argentina nos mostrando a sobrevivência do peronismo. Mas não acho difícil imaginar que, em três anos, haja a convocação de um referendo, com a possibilidade de retirada de Maduro do poder por "não ter sabido manter o legado chavista". Sem a presença de seu líder carismático, as críticas internas à própria base do chavismo, que sempre existiram, podem acabar inviabilizando a continuidade do governo. É preciso entender que Maduro não é Chávez. E que o fato de ele não ter conseguido uma vitória eleitoral ampla terá consequências graves em sua capacidade administrativa. Para Maduro, é o pior cenário possível.

* Iñaki Sagarzazu é cientista político venezuelano e professor de política comparada na Universidade de Glasglow, Escócia

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