AIEA aprova censura contra Irã

Com apoio da Rússia e China, agência da ONU condena país por causa de instalação 'secreta'; Brasil absteve-se de votar

VIENA, Reuters, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) aprovou ontem uma resolução de censura condenando o Irã, pela primeira vez desde 2006, pela construção secreta de uma usina de enriquecimento de urânio. Segundo a agência, a resolução "expressa séria preocupação por Teerã continuar desafiando as exigências da comunidade internacional", que pede uma suspensão completa do enriquecimento de urânio no país.

O governo iraniano declarou que a censura "apressada e indevida" prejudicará a cooperação do país. Do grupo de 35 países que compõem o conselho diretivo da AIEA, 25 concordaram com a resolução, incluindo a China e a Rússia, que anteriormente haviam barrado várias propostas semelhantes. Três países votaram contra o texto: Venezuela, Malásia e Cuba. O Brasil absteve-se de votar.

Nesta semana, o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, veio ao País. Durante a visita, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu o direito de Teerã desenvolver energia nuclear para fins pacíficos. Além do Brasil, também se abstiveram Afeganistão, Egito, Paquistão, África do Sul e Turquia.

Os EUA elogiaram a resolução. "O fato de 25 países de diferentes partes do mundo terem votado a favor da medida mostra a necessidade de o Irã encarar a crescente falta de confiança da comunidade internacional em suas intenções", disse Robert Gibbs, porta-voz da Casa Branca.

"A resolução é um sinal de que a paciência está se esgotando. Não podemos continuar com negociações simplesmente por realizar negociações", afirmou Glyn Davies, o enviado americano à AIEA. "Não podemos fazer rodadas seguidas de negociações infrutíferas, circulares, que não nos conduzem para onde queremos chegar."

No entanto, não está claro se a medida significará o apoio crucial de Rússia e China à imposição de novas sanções no Conselho de Segurança da ONU. Washington vem articulando com outros diplomatas ocidentais para aprovar novas punições no início de 2010 se o Irã não tomar medidas concretas sobre o tema.

Teerã afirmou que a resolução da agência da ONU ameaça o diálogo. "É claro que esta medida prejudicará o ambiente atual de cooperação com a AIEA", disse Ali Asghar Soltanieh, enviado iraniano à AIEA.

A resolução exige que o Irã suspenda imediatamente a construção da usina de enriquecimento de Fordow, situada em um bunker nas montanhas da cidade de Qom, e esclareça o objetivo dela, além de confirmar que não possui mais instalações nucleares ocultas ou planos clandestinos para construí-las.

O Irã rejeitou na semana passada uma proposta da AIEA para que 70% de seu urânio fosse enviado à Rússia para enriquecimento e depois à França para ser transformado em combustível para um reator de investigação científica em Teerã. O governo iraniano exigia receber o combustível nuclear no momento da entrega do urânio.

AMEAÇA

O Irã disse que desenvolveu a usina de Fordow em segredo para servir de apoio no caso de outras instalações serem bombardeadas por Israel, que considera o programa nuclear iraniano uma "ameaça existencial".

O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Ramin Mehmanparast, considerou "inútil" a resolução da AIEA e declarou que o país não pretende cumprir a exigência. "A resolução é apenas um gesto teatral que pretende intimidar o Irã", disse.

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