AL tem pior atuação em 3 áreas avaliadas pelo Pisa

Estado com o maior porcentual de analfabetismo do País, com 21,8%, de acordo com dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2012, Alagoas amarga mais um índice negativo, desta vez com o pior desempenho brasileiro nas três áreas avaliadas pelo Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês).

CARLOS NEALDO, ESPECIAL PARA A AE, Agência Estado

03 de dezembro de 2013 | 18h17

De acordo com os dados divulgados nesta terça-feira, 3, os estudantes alagoanos de 15 anos ficaram em último lugar do Brasil em matemática, com 342 pontos, leitura (355) e ciências (346), alcançando uma média de 347,7637. Espírito Santo, que encabeça a lista brasileira, teve 423,248 pontos de média.

Nesta terça-feira, a gerente de Ensino Fundamental da Secretaria de Estado da Educação de Alagoas (SEE), Ana Márcia Cardoso Ferraz, justificou o desempenho negativo dos alunos alagoanos com o que ela chama de "distorção de escolaridade" - formada por estudantes de 15 anos que deveriam estar no 9º ano do ensino fundamental, mas estão, geralmente, no 6º.

Segundo com números do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), do Ministério da Educação (MEC), dos 88,2 mil alunos matriculados no ensino fundamental da rede pública, metade está nessa chamada distorção. "São alunos que estão em média com dois anos de atraso", revela.

Exemplo do que Ana Márcia fala, o estudante S.O.M.S., de 16 anos, já deveria ter concluído o ensino médio, não fosse os seis anos repetindo séries. Atualmente no sexto ano, S.O.M.S. reconhece que por muito tempo não se interessava pelos estudos, o que fez ser expulso do antigo colégio. Arrependido, tenta se esforçar para concluir os estudos e servir às Forças Armadas, sonho dele. Para isso, promete não brigar mais com alunos nem bater na diretora, razão da última expulsão.

Para tentar reverter a situação do Pisa, que Ana Márcia reconhece não ser fácil, a secretaria lança em 2014 o Programa de Correção de Fluxo, que conta com uma série de ações, entre elas a compra de R$ 1,1 milhão em livros didáticos. No primeiro ano, porém, o esforço só contemplará 10,4 mil alunos, o que corresponde a cerca de um quarto do total de estudantes que está fora da faixa de escolaridade. "Sabemos que é pouco, mas é um passo importante." Conforme a diretora da Escola Estadual Professora Maria José Loureiro, Juliane Amorim, a solução não está apenas na compra de livros didáticos, mas numa série de fatores que passam pela qualificação dos professores. "Infelizmente, o governo não faz nada nesse sentido", lamenta.

A queixa de Juliane ressoa no Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (Sinteal), que há pelo menos cinco anos denuncia a necessidade de concurso público para preenchimento de pelo menos 3,5 mil vagas deixadas por professores que se aposentaram no serviço público. Sem concurso público há oito anos, a educação alagoana tem de se valer do esforço dos 3,4 mil profissionais para cobrir toda a rede pública.

Sem profissionais suficientes, o governo de Alagoas tenta reverter os índices de outras maneiras. Nesta segunda-feira, 2, a 15ª Coordenadoria Regional de Educação (CRE) abriu em Maceió o Primeiro Sarau Literário, que tem como principal objetivo aproximar os estudantes da leitura. Para isso, o evento, que é realizado no Centro de Ensino e Pesquisa Aplicada (Cepa), o maior complexo educacional de Alagoas, reúne uma série de atividades, entre elas a encenação de peças teatrais baseadas em clássicos da literatura brasileira. Nem bem começou o evento, o professor de teatro Mauro Braga já encontrou o primeiro desafio. "Apenas poucos dos 40 alunos que participaram do projeto conheciam o texto original", afirma.

Para sanar a dificuldade e fazer com que os estudantes soubessem do que se tratava o espetáculo, Braga distribuiu o resumo da obra em que os espetáculos foram baseados. "Era a forma de eles se familiarizarem com a história", afirma. O chefe da Unidade de Apoio Pedagógico da 15ª CRE, Marcus Affonso Barros Morais - que organizou o sarau - reconhece que o desafio é grande, mas diz acreditar que pode ser superado. Para isso, acredita que a reabertura das onze salas de leitura nas escolas que formam o Cepa - prevista para a sexta-feira, 6, é o primeiro passo. "Leitura é tudo", diz.

Apesar da crença, leitura não tem sido um ato comum na vida do estudante alagoano. Vanessa Maria da Silva, 16 anos, cursa o 8º ano em escola da rede pública estadual e diz gostar de matemática, inglês e artes. Diz que gosta de ler, mas alega não ter tempo para os livros. O último que leu foi a obra de autoajuda chamada Ainda Resta uma Esperança, do autor Enrique Chaij. "Não tenho tempo", declara.

O professor de matemática Eduardo Araújo conhece bem a realidade do ensino público e privado de Alagoas. Ensinando nas duas redes, Araújo diz que parte da culpa pelo fraco desempenho na matéria se deve aos pais - a maioria de baixa renda -, que não têm tempo ou não sabem repassar o conhecimento para os filhos. Na análise dele, o desempenho da rede privada é um pouco melhor porque os pais costumam cobrar, "afinal, estão pagando caro pelas mensalidades".

Outro fator que influencia no resultado negativo, aponta, é que boa parte dos pedagogos não gosta da disciplina e deixa claro isso para os alunos, por meio de um ensinamento burocrático. O resultado, na avaliação de Araújo, são alunos que chegam à universidade sem saber operações básicas de matemática. "Criou-se no ensino de Alagoas uma cultura em que o aluno não pode ser reprovado", denuncia. "Os próprios coordenadores de ensino exigem que os professores não reprovem os estudantes com dificuldades", completa. "Claro que há exceções", ressalta.

Uma delas é a estudante Marta de Fátima Oliveira, de 16 anos. Cursando o 3º ano do ensino médio da Escola Estadual Álvaro Paes, em Coité do Noia - município de 10,92 mil habitantes a 133 km de Maceió -, a estudante conquistou a conquistou a medalha de ouro na Olimpíada Alagoana de Matemática de 2013, há uma semana, e a de prata na Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), competindo com mais de 30 milhões de alunos. O resultado foi divulgado em Brasília, na sexta-feira, 29.

Filha de agricultores, Fátima tem sido o orgulho para Maria Aldineide Pessoa Gomes, a diretora da pequena escola onde a estudante divide espaço com outros 529 colegas. "O mérito é todo dela, porque sabemos de suas dificuldades", enfatiza. O segredo para o sucesso? "A matemática exige muita dedicação, por isso tenho dispensado algum tempo para desenvolver questões e me familiarizar com os conteúdos", afirma a estudante. E quando a maioria dos estudantes poderá ser comparada a Fátima? "É um processo lento, que não será solucionado no próximo ano", reconhece a gerente do Ensino Ana Márcia.

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