Alemães do leste sentem saudades do antigo regime

Nostalgia pela RDA movimenta comércio de ''produtos comunistas'', que até ganharam museu

, O Estadao de S.Paulo

09 de novembro de 2009 | 00h00

As garrafas de champanhe Rotkäppchen ganharam um sabor especial para os alemães que nasceram e cresceram na República Democrática Alemã (RDA). Produzida no leste durante a divisão da Alemanha, a bebida é apenas um dos muitos produtos que são vistos hoje como um símbolo da nostalgia dos tempos quando o país ainda era dividido em dois. Grande parte da população parece ter criado uma memória particular da época em que a Stasi perseguia cidadãos, cuja liberdade era constantemente cerceada pelo governo oriental.

Uma pesquisa divulgada no mês passado pelo Instituto Forsa indicou que um entre sete alemães gostaria da volta da barreira que dividia a Alemanha. O estudo ainda apontou que 15% dos mais de 80 milhões de habitantes do país sentem saudade da época em que o território era cortado.

"As pessoas não gostam de lembrar das coisas ruins que ocorreram durante o regime comunista, então a tendência é que elas lembrem apenas do que era bom", afirmou o historiador Stefan Wolle, especialista em temas da RDA. Wolle participou de um levantamento feito pelo governo sobre a percepção dos alemães sobre a divisão do país 20 anos depois da queda do Muro de Berlim. Segundo a pesquisa, 49% das pessoas que nasceram e cresceram do lado oriental têm uma visão positiva do antigo regime, e apenas 8% têm memórias negativas. Quando a população analisada é a que nasceu e cresceu no lado ocidental, a situação se inverte: 26% têm uma percepção ruim da RDA e 13% avaliam o governo comunista como "bom".

"Muito disso pode ser explicado pelo fato de que na RDA não havia desemprego e todos tinham uma vida muito certa, sem inseguranças sociais", disse Wolle. Depois da reunificação, em 1990, a população do leste caiu cerca de 2 milhões. A falta de emprego aliada a salários baixos - a renda mensal de um trabalhador no leste equivale a 80% da de um empregado no oeste - é um dos motivos para o crescente êxodo da região.

A vontade de relembrar as partes boas da época comunista se reflete na proliferação de lojas especializadas em produtos da RDA. Em quase todas as cidades do leste é possível encontrar pelo menos um estabelecimento do tipo. As garrafas de Moët & Chandon e o creme Nivea dão lugar nas prateleiras desses supermercados ao champanhe Rotkäppchen e o creme hidratante Florena.

"O que mais sinto falta são os doces", disse Marina, uma jovem de 24 anos nascida na Alemanha Oriental que não quis dar o sobrenome. Utensílios de cozinha como as populares taças de sobremesa azuis em estilo retrô e brinquedos também têm seu espaço garantido nessas lojas. Alguns itens tornaram-se peças de colecionador.

"Os produtos orientais adquiriram um status "descolado" entre os jovens", explicou Wolle. "Muitos têm fixação por esses produtos porque, com eles, se lembram de sua infância." Com esse propósito, foi criado o Museu da RDA em Berlim, inaugurado em 2006.

O acervo do museu conta com mais de 200 mil objetos. Lá é possível conhecer de perto um apartamento nos moldes orientais, ver filmes da época e dirigir um Trabi, o veículo popular da RDA. O principal objetivo do museu é mostrar a relação entre a vida cotidiana no leste e o sistema político de repressão que estava em vigor.

"Todas as minhas lembranças de infância estão expostas aqui", disse Holger Lütz, que visitava a loja do museu, onde é possível comprar produtos orientais.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.