Alga calcária abriga vida no fundo do mar

Mapa produzido pela Rede Abrolhos mostra que 43% do leito marinho do Banco é coberto por estruturas esféricas de algas calcárias, chamadas rodolitos

Herton Escobar, O Estado de S.Paulo

01 Abril 2012 | 03h05

Os recifes de coral não são a única "cobertura viva" do Banco de Abrolhos. Nem a maior. Segundo um mapa inédito produzido pela Rede Abrolhos, cerca de 43% do leito marinho do Banco - cerca de 21 mil km², uma área equivalente à do Estado de Sergipe ou da Grande Barreira de Corais da Austrália - é coberto por estruturas esféricas de algas calcárias, chamadas rodolitos. Cada rodolito funciona como um minirrecife, poroso e cheio de reentrâncias, que serve de abrigo para pequenos invertebrados, proporcionando um ambiente muito mais complexo e rico biologicamente que um simples fundo de areia.

"É uma capa calcária viva e cheia de vida", diz o biólogo Gilberto Menezes Amado Filho, do Instituto de Pesquisas do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Uma constatação científica que, segundo ele, altera o paradigma de como se olha para a plataforma continental no Brasil - uma área descrita pelo Ministério das Minas e Energia como "a última fronteira da mineração brasileira". "Não é só uma estrutura mineral inerte, é uma estrutura biológica ativa, fotossintetizante", defende o biólogo.

As algas calcárias são vegetais, mas não como os que estamos acostumados a ver na superfície. São organismos incrustantes, que se fixam sobre algum substrato - um grão de areia, um pedaço de concha - e crescem em camadas concêntricas, que vão se sobrepondo umas às outras. "Como as camadas de uma cebola", nas palavras de Amado Filho.     

Para sobreviver, fazem fotossíntese. E, associado à essa fotossíntese, fazem um processo chamado de biomineralização, retirando carbonato de sódio da água e transformando-o em carbonato de cálcio, que é depositado na forma de um esqueleto calcário rígido.

Um processo que, dependendo das circunstâncias e das espécies envolvidas, pode dar origem tanto a recifes de coral (que, apesar do nome, são em grande parte construídos também por algas calcáreas) quanto rodolitos. Em Abrolhos, ocorrem as duas coisas. Mas só a primeira era devidamente conhecida e valorizada até recentemente.

Os rodolitos, redondos, ficam soltos no fundo e rolam para lá e para cá de acordo com a vontade das marés. O tamanho varia com a idade, com diâmetros que podem chegar a 25 cm. Datações por radiocarbono realizadas nos núcleos de alguns rodolitos indicam que eles podem ter mais de 8 mil anos.

"Eles estão aqui há muito tempo, mas nada garante que eles estarão aqui para sempre", diz o biólogo americano Les Kaufman. Assim como os recifes coralíneos, os rodolitos correm risco de serem "dissolvidos" pela acidificação dos oceanos, um fenômeno associado ao aumento da concentração de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera.

Sopa de algas. Ao longo de sete dias no mar, numa expedição organizada pela ONG Conservação Internacional, o Estado mergulhou com pesquisadores em vários pontos de fundo de rodolitos no Banco de Abrolhos - em áreas onde ocorrem também as chamadas "buracas", depressões arredondadas no substrato marinho, descobertas no processo de mapeamento por sonar.

Encontrá-las da superfície, mesmo com o auxílio de GPS, não foi fácil. Nesta época do ano, quando a movimentação da água é menor, os bancos de rodolitos ficam forrados de macroalgas- estas, sim, plantas como as que estamos acostumados - de até 1 metro de altura. O fundo do mar mais parecia uma plantação de soja, daquelas bem verdes e vistosas, à perder de vista no interior de Mato Grosso.

"Veja só essa quantidade de biomassa. É incrível", impressiona-se Kaufman, ao ver as imagens enviadas por um robô submarino, guiado por controle remoto de dentro da embarcação.

Essas grandes algas não estão crescendo sobre a areia; cada muda está fixada num rodolito. As que se soltam ou morrem são arrastadas pela correnteza para dentro das buracas, que ficam entupidas até a boca de algas em decomposição. Uma concentração de matéria orgânica tão densa que as ondas acústicas do sonar do barco não conseguiam atravessá-la, impossibilitando-nos de fazer uma leitura precisa de sua profundidade. Tudo que víamos ao mergulhar eram "caldeirões" transbordando com uma "sopa" de algas.

"As buracas acabam funcionando como reatores de fermentação, importantes para a reciclagem de nutrientes", explica Rodrigo Leão de Moura, pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro e coordenador da Rede Abrolhos. A matéria orgânica que é decomposta dentro delas volta para a base da cadeia alimentar, alimentando o plâncton, que alimentará os peixes, que eventualmente alimentarão os pescadores. No inverno, as algas desaparecem e as buracas, algumas com dezenas de metros de diâmetro, passam a servir como pontos de refúgio e agregação de grandes cardumes.

Conectividade. Os campos de rodolitos por si só não agregam tantos peixes, mas servem como corredores de conectividade entre as áreas de recifes, permitindo que organismos marinhos, desde larvas a peixes adultos, transitem com maior segurança de um lugar a outro. "Comparado a um fundo de areia, os rodolitos são um ambiente muito mais ameno para o deslocamento de muitos animais", diz Moura. "É uma matriz de conectividade muito mais eficiente."

Ele chama atenção para o fato de que só uma parte ínfima do banco de rodolitos está dentro do parque nacional. "É talvez o maior banco de algas calcárias do mundo e praticamente 0% dele está protegido", observa Moura. "O delineamento de estratégias de conservação para áreas recifais precisa levar em conta essa conectividade, assegurando corredores de hábitats para o deslocamento de jovens e adultos e a proteção de áreas críticas, que podem favorecer a exportação de ovos e larvas, tais como os locais de agregação reprodutiva", completa.

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