Almas gêmeas que não passaram do mês de janeiro

Livrarias britânicas e francesas lembram de George Orwell e Albert Camus com leva de lançamentos e relançamentos

Sérgio Augusto, O Estadao de S.Paulo

30 de janeiro de 2010 | 00h00

Para falar de George Orwell e Albert Camus não necessitamos de gancho, de nenhum fato que os evoque ou ressuscite suas ideias, como, digamos o desabrochar de uma ditadura e o surgimento de uma nova pestilência - para não falar da total degradação, pela TV, do conceito original de Big Brother. Uma infinidade de coisas pode, a qualquer momento, trazê-los de volta à memória coletiva, ainda que apenas uma minoria saiba quem foi e o que sofreu Winston Smith e o que aconteceu em Oran nos anos 1940.

O rato morto encontrado pelo dr. Rieux, na abertura de A Peste, de Camus, de imediato me veio à mente na cena em que uma premonitória gaivota se choca e morre na soleira da casa de Suzanne Pleshette, em Os Pássaros, de Hitchcock. Sempre que um calor insuportável nos atinge, como vem acontecendo nas últimas semanas, lembro-me do crime que o escaldante sol argelino fez Meursault cometer em O Estrangeiro, o mais festejado romance de Camus. Sempre que algum político tenta nos engabelar com um descarado oxímoro, lembro-me da "novafala" orwelliana.

Constantemente em evidência, Orwell e Camus abriram este século como fecharam o outro, no topo dos intelectuais públicos e dos profetas políticos com maior índice de acertos. Volta e meia os franceses se perguntam "O que Camus teria dito disso?", com a mesma frequência com que os ingleses (e americanos) especulam sobre o que Orwell teria escrito a respeito de, digamos, Maio de 68, o fim do império soviético, o terrorismo islâmico, as torturas em Abu Ghraib, o controle da internet pelo governo chinês e o nauseabundo culto às celebridades.

Nas últimas semanas, Orwell e Camus voltaram ao noticiário. O primeiro com o anúncio de um museu a ser construído na casa onde ele nasceu; o segundo, por obra de um impasse surgido entre o presidente Nicolas Sarkozy e um dos herdeiros do escritor.

Orwell nasceu na cidade de Motihari, no estado indiano de Bihar, num bangalô por demais modesto para abrigar um museu, que, além do mais, deverá ser menos visitado que o museu Rudyard Kipling, que fica em Mumbai, não nos cafundós da Índia, fora de qualquer rota turística, como o de Orwell.

Camus foi enterrado no cemitério de Lourmarin, charmosa cidade provençal onde passou os últimos verões de sua vida. Sarkozy cismou de reenterrá-lo no Panthéon, o mais ilustre mausoléu da França, última morada de vários heróis gauleses, de Voltaire e Rousseau a Pasteur, Victor Hugo e Zola. Um dos filhos do escritor, Jean Camus, 64 anos, não só recusou a honraria como acusou o presidente francês de oportunista. Se vivo fosse, insinuou Jean, Camus seria um opositor ferrenho do atual governo. "Sarkozy é a antítese de tudo aquilo que meu pai defendia." Jornalistas e intelectuais franceses concordam com Jean, engrossando seu argumento com o currículo obscurantista do presidente, que há tempos se manifestou contra o ensino de autores clássicos nas escolas públicas (sua bête noire é Madame de La Fayette, autora de A Princesa de Clèves).

Romancistas, jornalistas e ensaístas, défroqués do socialismo (mas esperançosos de sua eventual "reinvenção"), baluartes da esquerda independente e humanistas full time, Orwell e a Camus foram críticos precoces do colonialismo, do comunismo e de todo tipo de autoritarismo. Eram filhos de colônias europeias (Orwell saiu da Índia no colo e viveu na Birmânia, atual Mianmar; Camus nasceu em Mondovi, atual Dréan, na Argélia) e talvez por isso fascinados pelo norte da África (Camus: Argélia, Orwell: Marrocos). Lutaram nas mesmas frentes, conheceram de perto os horrores da guerra (Orwell, a Civil Espanhola, Camus, a Segunda Mundial), não escaparam da "moléstia de Hans Castorp", a tuberculose, e morreram no mês de janeiro, com a mesma idade: 46 anos; Orwell em 21 de janeiro de 1950 (consumido pela tuberculose) e Camus em 4 de janeiro de 1960 (num acidente de carro).

Por conta dessa fatídica coincidência, as livrarias britânicas e francesas abriram 2010 com uma leva de lançamentos e relançamentos centrados na dupla, sob a forma de biografias, diários, memórias e reavaliações críticas.

Orwell teve os diários que compilou entre 1931 e 1949, há 12 anos editados em 21 volumes, reunidos pela primeira vez num único tomo, com curadoria de Peter Davison. Sua última anotação foi feita em setembro de 1949. Nela, Orwell descreve as rotinas no hospital universitário, onde morreria quatro meses depois. Existe mais um diário, sem data de publicação, e, possivelmente, outro, confiscado por agentes soviéticos num hotel de Barcelona, em junho de 1937.

A celebração em torno de Camus foi mais ampla, incluindo documentários para a TV, especiais de rádio, um dicionário preparado pelo sorbonnard Jeanyves Guérin, um luxuoso livro nostálgico, fartamente ilustrado, Albert Camus: Solitaire et Solidaire, escrito por Catherine Camus, filha do escritor, e até um clip de 3 minutos veiculado há duas semanas na revista The New Republic, em que o escritor aparece e dá entrevista durante um jogo de futebol entre o Racing de Paris e o Mônaco, circa 1958. Camus, que adorava futebol e foi goleiro de um time universitário argelino, torceu pelo Racing, embora seu time do coração fosse o Paris Saint-Germain. Mônaco venceu por 2 a 1. Existe uma versão do clip no You Tube, 50% mais curta.

Celebridades malgré eux, solitários e solidários, sobretudo com os pobres, humilhados e oprimidos, eram espíritos livres que estoicamente bancaram uma posição política heterodoxa até o fim de seus dias. Nunca os seduziu a moral de que o fim justifica os meios, nem o peso e duas medidas de alguns de seus supostos companheiros de luta. Não entendiam como uma cabeça pensante, com o coração no lugar certo, pudesse ser antifascista e fazer vista grossa para o totalitarismo stalinista. Nem Marx nem a Bíblia poderia ser o lema de qualquer um dos dois. Camus achava Marx "estimável e generoso", mas não considerava o marxismo uma doutrina científica. De todo modo, definia-se como "de esquerda, a despeito de mim, e a despeito dela". Deve ter se revirado na tumba quando conservadores o transformaram, levianamente, num de seus heróis. Idem Orwell.

Orwell foi mais ensaísta do que romancista; Camus, melhor romancista do que ensaísta. O anglo-indiano era mais concreto; o pied-noir, coerente com a cultura francesa, mais abstrato, embora mais prático e ativo politicamente. Camus não assinava manifestos, não participava de passeatas, mas conseguiu clemência para vários argelinos condenados à morte pelo governo francês, no auge da guerra da libertação da Argélia. Com Orwell compartilhou amizades (o também défroqué Arthur Koestler, a mais notória), angústias, desilusões, e afinidades "estilísticas", como a prática de uma prosa clara e transparente.

Camus parecia conhecer melhor Orwell do que Orwell conhecia Camus, que leu A Revolta dos Bichos, 1984 e até Dias na Birmânia. Orwell reverenciou o tirocínio político de Camus, numa carta ao crítico literário Philip Rahv, datada de abril de 1946, na qual reclamava da censura ideológica que Louis Aragon e outros luminares do PC francês então impunham às editoras parisienses.

Não se conheceram pessoalmente. Marcaram um almoço, em Paris, em 1945, a que Camus, adoentado, não pôde comparecer. Orwell não entra em detalhes, mas é possível que Camus estivesse às voltas com os bacilos de Koch. Mesmo que Camus tivesse escapado com vida do acidente de carro - a mais absurda das mortes, segundo ele -, seus pulmões não o deixariam conhecer a velhice. Estava fadado a ser um jovem cadáver, há 50 anos enterrado singelamente em Lourmarin, sem as pompas do Panthéon.

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