Alta brusca do café gera pressão para renegociar acordos no país

A forte alta dos preços do café no mercado físico no Brasil nas últimas semanas está fazendo com que produtores e cooperativas busquem renegociar com compradores valores fechados em vendas realizadas no passado, para entrega a termo, disseram corretores.

ROBERTO SAMORA, REUTERS

11 de fevereiro de 2011 | 17h21

Os preços do café de boa qualidade no mercado brasileiro estão quase o dobro de igual período no ano passado e tiveram um forte aumento desde o início de 2011, o que aumentou o descontentamento de produtores que fecharam vendas no ano passado.

O indicador de preços do Cepea, uma importante referência no mercado, aponta a cotação atualmente em 489 reais a saca de 60 kg (posto na cidade de São Paulo), cerca de 210 reais acima do registrado no mesmo período do ano passado e quase 80 reais mais alto ante o valor do início de 2011.

"Existem realmente no mercado problemas. Não digo isolados, mas representativos, de renegociação de contratos", afirmou o corretor Marcus Magalhães, da Maros, com sede em Vitória (ES).

O café arábica vem sendo negociado no mercado nova-iorquino nos maiores valores em quase 14 anos, impulsionando as cotações no Brasil, diante da oferta apertada de café no mundo e da demanda firme.

"O setor hoje tem vários traumas, seja ele financeiro, seja ele de abastecimento", afirmou, lembrando que muitos produtores venderam barato o café há alguns meses na comparação com os preços atuais.

Segundo Magalhães, a alta de preços, em vez de euforia, trouxe "muito mais apreensão ao mercado", porque nenhum produtor que vendeu o café durante o ano passado esperava um aumento tão forte.

E exportadores foram afetados também na medida em que precisam de mais recursos, muitas vezes acima de seu limite de crédito.

"Você imagina aquele exportador que tinha um limite no banco de 5 milhões de reais... e num mercado de 250 reais a saca, ele tinha um volume de crédito de 20 mil sacas de café. Hoje a saca é 500, e o limite dele continua 5 milhões, o próprio giro dele foi para 10 milhões, e o banco não aumentou o limite dele, muito pelo contrário, ele ficou com medo do cara", afirmou Magalhães, referindo-se ao "squeeze" financeiro.

Um outro corretor, que pediu para não ser identificado, também comentou que há renegociação.

"O que andei ouvindo e vendo é de cooperativas e comerciantes. Lógico, ninguém fala: 'não vou cumprir porque sou sem vergonha'. Fala: 'eu não recebi do produtor e não vou cumprir o negócio'. Ou pedindo um acerto...", afirmou o corretor, destacando que vários casos ocorreram em Minas Gerais, o maior produtor do Brasil, e em São Paulo.

EXPORTAÇÃO

Na área exportadora, embora o corretor Magalhães acredite que exista problemas para se cumprir entregas, o segundo corretor afirmou apenas que pode ser que haja um ou outro caso, "de um pessoal menos capitalizado e menos preparado", pois o Brasil tem tradição de honrar seus compromissos externos.

Exportadores consultados pela Reuters afirmaram que não há casos de tentativa de renegociação de contratos para embarques do produto ao exterior, embora um deles, entre os cinco maiores, também tenha admitido que o problema ocorre na negociação com setor produtivo.

Ao ser questionado sobre o assunto, o diretor-geral do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil, Guilherme Braga, afirmou: "se tiver algum caso, o que eu não acredito, é muito pontual".

"Claro que a gente não pode falar em termos 100 por cento, mas pelas conversas que tenho com exportadores frequentemente, não há esse tipo de situação", acrescentou, lembrando que os embarques totais de café do Brasil em fevereiro devem ficar somente um pouco abaixo dos de janeiro, em cerca de 2,6 milhões de sacas. "O que é normal, já estamos no oitavo mês da safra."

Também questionado sobre o assunto, o presidente do Conselho Nacional do Café, Gilson Ximenes, que representa os produtores, disse que pode ser que alguns tenham tentado renegociar contratos, mas não acredita que alguém tenha conseguido.

"Sempre tem gente tentando, mas é difícil, está vendido, fazer o quê? Seria uma quebra de contrato, é muito difícil", comentou, acrescentando que ele próprio, um grande produtor, vendeu toda sua safra por 270 reais por saca no ano passado.

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