Alterações vão além da aparência

Monitoramento mostrou que animais híbridos com aparência de uma espécie foram se alimentar em áreas típicas de outra

O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h08

As tartarugas híbridas da Bahia não são diferentes de suas parentes de "raça pura" apenas na aparência. Dados de monitoramento por satélite, publicados por cientistas do Projeto Tamar, sugerem que elas têm comportamento ecológico também fora dos padrões.

Depois de desovar na praia, fêmeas híbridas com morfologia típica de tartaruga-de-pente (Eretmochelys imbricata) foram se alimentar em áreas típicas de tartaruga-cabeçuda (Caretta caretta), levantando dúvidas sobre a capacidade desses animais de se adaptar a nichos ecológicos de uma ou outra espécie.

"A morfologia de cada espécie é adaptada à sua dieta específica", diz o cientista Luciano Soares, um dos autores do estudo, publicado em maio na revista Endangered Species Research.

Tartarugas-de-pente são chamadas em inglês de "hawksbill", porque têm um bico pontudo, parecido com o de um falcão, que usam para cavoucar fendas em busca de esponjas, anêmonas e outros alimentos moles encontrados em recifes de coral. Já as tartarugas-cabeçudas, como sugere o nome, têm cabeça e mandíbula mais robustas, que usam para quebrar a carapaça de lagostas, caranguejos e outros crustáceos que caçam em fundos de areia ou lama.

Ou seja: as duas espécies se alimentam de coisas diferentes, em ambientes diferentes. O que acontece, então, quando são misturadas num mesmo animal?

Os cientistas colocaram aparelhos de monitoramento via satélite em 15 fêmeas classificadas morfologicamente como tartarugas-de-pente. Análises de DNA, porém, mostraram que 6 delas eram híbridas - meio pente, meio cabeçuda. Destas, cinco rumaram ao norte para se alimentar em áreas típicas de tartaruga-cabeçuda, ao largo do Rio Grande do Norte, Ceará e até Pará, onde há muita pesca de lagosta; enquanto que as pente "puras" permaneceram em áreas típicas da espécie, de Pernambuco para baixo, onde os recifes de coral são bem mais abundantes.

Aparentemente, a genética de pente prevaleceu na morfologia; mas no comportamento alimentar, quem ditou a rota foi a genética de cabeçuda.

Avaliação. A grande dúvida é qual será o impacto dessa hibridização no futuro das espécies. "Pode ser uma ameaça, teoricamente, mas para dar respostas mais consistentes precisamos de mais pesquisas", avalia Neca Marcovaldi, diretora técnica nacional do Tamar.

Novos estudos vão tentar determinar o que as híbridas estão comendo e qual é, exatamente, sua viabilidade reprodutiva. Por exemplo, se há diferenças entre tartarugas híbridas e puras no número de ninhos, de ovos, de filhotes nascidos, ou no tamanho dos filhotes. "O hibridismo não é necessariamente um problema", complementa Soares. / H.E.

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