Alto comparecimento facilita apoio internacional à eleição em Honduras

Fontes divergem sobre quantos eleitores votaram; votação tranquila favorece reconhecimento de novo presidente

Ruth Costas, TEGUCIGALPA, O Estadao de S.Paulo

01 Dezembro 2009 | 00h00

Um dia após Porfírio "Pepe" Lobo ser declarado o novo presidente eleito de Honduras, a grande dúvida ontem era se a votação de domingo passaria no teste da comunidade internacional, que há semanas está dividida sobre seu reconhecimento.

 

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Países como os EUA, a Colômbia e Peru, que já estavam dispostos a reconhecer a votação, se mostraram satisfeitos com as condições nas quais ela ocorreu. Casos de violência foram registrado apenas em San Pedro Sula, no norte do país, onde a polícia reprimiu violentamente uma manifestação zelaysta e feriu 2 pessoas.

Embora ainda não oficialmente, a Espanha estaria pronta para adotar uma posição mais conciliadora, segundo informou ontem o jornal espanhol El País. A Organização dos Estados Americanos (OEA) também já se disse disposta a dialogar com Lobo e discutirá o tema no dia 4.

Até o governo brasileiro parece ter dado sinais de conformismo. Ontem, enquanto o chanceler Celso Amorim, que está na Suíça, se esforçava para manter o que havia dito no domingo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que negou o reconhecimento das eleições, Marco Aurélio Garcia, assessor de Lula, suavizou o discurso em Brasília e admitiu rever a posição do País (leia abaixo). A resistência a aceitar a votação, no entanto, foi mantida pelos países da Aliança Bolivariana para as Américas (Alba).

Entre os que apoiaram a votação, o principal argumento é o que parece ter sido um bom nível de comparecimento dos hondurenhos às urnas, apesar de só os índices oficiais estarem disponíveis - a eleição não foi observada por nenhum organismo de peso independente.

Segundo o Tribunal Supremo Eleitoral, 61% dos hondurenhos votaram - índice considerado alto para o país, onde o voto não é obrigatório. Em 2005, por exemplo, o comparecimento foi de 55%. A organização Hagamos Democracia, que acompanhou a votação, pouco antes havia dado uma estimativa mais baixa - de 47%.

O presidente deposto, Manuel Zelaya, que havia pedido o boicote à votação, denunciou que 60% dos hondurenhos não votaram. No domingo, as zonas eleitorais visitadas pelo Estado estavam cheias, apesar do clima de intimidação. Havia mais de 30 mil militares e policiais nas ruas e a Frente Nacional de Resistência (FNR), que apoia a volta de Zelaya, denunciou que 30 de seus membros teriam sido presos arbitrariamente.

Como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a ONU não acompanharam a votação, o governo de facto convidou políticos, ONGs e institutos de pesquisa para serem observadores. Cerca de 300 aceitaram, embora alguns fossem abertamente críticos a Zelaya.

Outro argumento a favor do reconhecimento da votação é o de que ela já estava marcada antes da crise e os candidatos, definidos. Além disso, se a eleição não ocorresse, o país ficaria sem um presidente eleito no dia 27 de janeiro, quando acaba o mandato de Zelaya. Os que se negam a reconhecê-la dizem que ela legitima o golpe e é um péssimo exemplo para a América Latina.

Uma solução seria que o Congresso aprovasse, em reunião marcada para amanhã, a restituição de Zelaya. O problema é que, segundo deputados consultados pelo Estado, as chances de que isso ocorra são pequenas. Desconfiados, muitos temem que, uma vez no poder, Zelaya tente anular as eleições.

A Corte Suprema de Justiça e o Ministério Público já emitiram pareceres contrários a sua volta. E o próprio presidente deposto diz que não quer retornar nessas condições para não legitimar o golpe.

COM JAMIL CHADE

NÚMEROS DA DISPUTA

53% dos votos

teriam sido destinados a Porfírio "Pepe" Lobo, com mais de 60% das urnas apuradas, segundo dados parciais do Tribunal Superior Eleitoral

35% dos votos

teriam sido obtidos por Elvin Santos, do Partido Liberal

61% do eleitorado

compareceu às urnas na votação de domingo, de acordo com o TSE. A cifra foi questionada por Zelaya e seus partidários, que afirmaram que a abstenção teria sido de cerca de 60%

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