Janaína Ribeiro/Estadão
Janaína Ribeiro/Estadão

Alunos buscam alternativas para não sair da faculdade

De trocar de curso a encarar uma dívida, histórias de quem não pensa em desistir de estudar

Ana Carolina Neira, Isabela Bonfim, Lucas Loconte e Rodolfo Mondoni, Especial para o Estado

08 Agosto 2015 | 03h00

A estudante de Direito Camila Macedo, de 26 anos, estava com a mensalidade atrasada havia três meses quando a própria faculdade sugeriu um financiamento privado. Gabriel Amaral, de 18, trocou o curso de Veterinária pelo de Ciências Contábeis, apostando que assim vai poder entrar no mercado de trabalho mais rápido. Histórias de estudantes que buscam alternativas para não ter de abrir mão do diploma mesmo em tempos de crise.

Alguns universitários estão trilhando o caminho do endividamento – no ensino superior, o índice de inadimplência chegou a 11,5% no primeiro semestre. Outros tentam mudar de estratégia para esse débito não crescer mais. 

Quando percebeu que não teria como arcar com as mensalidades da FMU e os custos de viver em São Paulo, o baiano Gabriel resolveu voltar para a casa dos pais, em Ilhéus. O montante do débito universitário soma R$ 2 mil, que ele pretende negociar com a instituição. 

Com a estrutura de morar com os pais e um curso mais em conta, o ensino superior vai caber no orçamento. “Primeiro, farei algo que posso pagar, depois realizo meu sonho.” O plano é juntar dinheiro para, no futuro, fazer Veterinária.

Fies. As recentes mudanças no Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), fruto dos cortes de gastos públicos, pegaram de surpresa outra parcela de estudantes. Thayná Dias, de 20, dá rosto ao dado bruto: a redução de 42,81% no número total de novos contratos, segundo o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE).

Ela tentou o Fies pela Faculdade Maurício de Nassau, no Recife. Mas não havia vagas suficientes de financiamento pelo programa governamental. O curso superior de Enfermagem, que custaria cerca de R$ 800 por mês, foi substituído por um técnico na mesma área, para o qual ganhou bolsa de 50%. Com isso, ela paga R$ 120. “A faculdade abriria mais portas”, afirma Thayná. “Um dia eu chego lá.” 

Financiamento privado. Com menos vagas no Fies, que agora subiu os juros de 3,4% para 6,5% ao ano em novos contratos, a alternativa usada por alguns alunos é recorrer ao financiamento privado. No principal programa de crédito universitário, o Pravaler, da Ideal Invest, o volume de contratos aumentou 7,5 vezes entre abril e julho em comparação com o mesmo período do ano anterior. Isso apesar dos juros anuais que chegam a 29,7%.

Seguindo a recomendação da própria universidade, a Estácio de Sá, Camila Macedo buscou o Pravaler para se manter no curso de Direito. No quarto e penúltimo ano da faculdade, desistir não era uma opção. 

As dívidas da universitária começaram a se acumular depois de ela trocar um emprego no segmento de turismo por outro em sua área de estudos. Três mensalidades de R$ 760 estavam em aberto. Com ajuda do crédito, conseguiu quitar a dívida e vai ter o dobro do tempo para pagar a faculdade. “Mesmo com os juros, o crédito era minha única alternativa”, diz Camila. “Sempre sonhei em fazer Direito e, sem o financiamento, não teria conseguido.” 

O crédito por meio do Pravaler deve aumentar já no segundo semestre. Isso porque a Ideal Invest assinou contrato com a Federação Nacional das Escolas Particulares (Fenep), garantindo às instituições de pequeno e médio porte as opções que antes só chegavam às universidades com mais de 5 mil alunos. As instituições atendidas devem passar de 200 para 350. “Todos os setores estão se organizando. A maneira que encontramos foi chamar a iniciativa privada para o crédito educativo”, diz a presidente da Fenep, Amábile Pácios.

Apesar dessa previsão de avanço, a escala de financiamentos públicos e privados é muito diferente. Para se ter uma ideia, de 2010 a 2014, o Fies alcançou 1,9 milhão de alunos, enquanto o Pravaler concedeu crédito a 50 mil desde sua criação, em 2006.

Na universidade. As instituições de ensino, por sua vez, voltaram a turbinar a oferta de bolsas e o financiamento próprio, reduzidos em épocas de Fies mais amplo. A Estácio adotou essas medidas e incluiu outra, um seguro educacional que cobre a mensalidade por até seis meses se o aluno perder o emprego.

A universidade passou a seguir de perto os sinais de desistência dos alunos ao longo do semestre. “Essa é a batalha que escolhemos para o início de 2015: diminuir a evasão”, afirma o Diretor Financeiro da Estácio, Virgílio Gibbon.

O grupo Kroton, que inclui gigantes como Anhanguera e Pitágoras, também inaugurou o Parcelamento Especial Privado, que financia o primeiro ano de estudos sem juros. De janeiro a março, o grupo concedeu crédito a mais de 22 mil alunos.

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