Alunos de Fortaleza são hostilizados

Estudantes do Christus se dizem com medo e reclamam de declarações xenófobas na internet; protestos são marcados em todo o País

PAULO SALDAÑA , ENVIADO ESPECIAL A FORTALEZA, O Estado de S.Paulo

28 Outubro 2011 | 03h03

Na terça-feira, quando a estudante Raquel Varela, de 17 anos, ia da escola para casa, foi xingada. Em outro momento, um aluno de outra escola a ironizou com lentas palminhas. "Estou com medo até de andar de ônibus e não tive culpa de nada", disse ela ontem, assustada e com olhos marejados. "Nem de uniforme eu vim. Agora, aluno do Christus não pode mais andar na rua."

O que motiva a reação é o fato de a escola ter usado em um caderno de exercícios itens idênticos aos que caíram no Enem. "Está tudo muito triste. As pessoas nos apontam como fôssemos criminosos", lamenta a estudante Neyany Ximenes, de 17 anos. Ela também reclama dos ataques pela internet. "Recebemos xingamentos de 'cabeça chata', mensagens dizendo que cearense não vale nada. E eu nem fiz essas questões antes da prova."

Beatriz Sucupira, do 3.º ano do Christus, reclamou dos comentários. "Estamos sofrendo xenofobia. Tem gente dizendo que vai jogar uma bomba aqui."

Um usuário que diz ser de Belo Horizonte escreveu: "galerinha que fez o Enem se f****, se fosse eles, soltava uma bomba no Nordeste que matava quem antecipou a prova e todos os nordestinos, kk (sic)".

Outro usuário da rede social escreveu, anteontem: "Enem pode ser cancelado, e graças a uma escola do Nordeste. Pqp, nordestinos malditos".

A administradora Jocelis Chagas, de 45 anos, fez questão de buscar a filha Marina na escola. "Eles estão sendo massacrados nas redes sociais. E o MEC, anulando a prova apenas para esses alunos, está fazendo com que eles já se tornem culpados por algo que não fizeram."

Confusão. O calendário de aulas de ontem seguiu normal na unidade pré-vestibular do Christus, em uma rua tranquila no bairro Aldeota, um dos mais nobres da capital cearense. O clima entre os alunos era de indignação e nervosismo. Na hora do intervalo matutino, alunos foram liberados até a portaria para conversar com a imprensa. "Vou estudar mais, fazer a prova de novo injustamente. Mas agora temos de provar que o mérito é nosso", disse Marina Coelho, de 18 anos, que saiu à rua para "expressar nossa indignação".

Mas, no fim do período, houve confusão e gritaria. "A gente não aguenta mais isso. Não fizemos nada. Respeitem", gritava aos jornalistas uma aluna, aos soluços. Duas estudantes e uma mãe tentaram danificar a câmera do fotógrafo do Estado. Na porta, ao menos três alunas choravam.

Entre os funcionários, silêncio total. O advogado que defende a escola, Cândido Albuquerque, disse que quer detalhes do procedimento de Cesgranrio na organização das provas de pré-testes. "Qual sistema de segurança eles têm? Precisamos saber se não deixam na mão das escolas."

Protestos. Pelo Facebook, estudantes de todo o País prometem sair às ruas em protestos contra o Enem, enquanto alunos do Christus querem se manifestar contra a decisão do MEC. Há protestos marcados para o dia 13 de novembro em Porto Alegre, Rio. Niterói, Belo Horizonte, Caxias do Sul, Fortaleza, Recife, Teresina e São Paulo. Hoje, às 11 horas, há protesto em Santa Maria (RS). / COLABOROU CEDÊ SILVA

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