Amarelo e verde

O ouro é um dos ativos campeões em valorização deste mês de novembro. Suas cotações subiram 13% até o fechamento de sexta-feira, ainda que nos dois últimos dias úteis tenha sido em alguma medida rejeitado pelos aplicadores.

Celso Ming, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

O dólar teve, no mercado internacional, comportamento inverso ao do ouro: despencou em relação às moedas fortes ao longo do mês, mas, nos dois últimos dias, voltou a reagir.

Isso parece mostrar alguma mudança no conceito do que deve ser considerado uma aplicação de segurança.

A diferença foi determinada pelo fator medo que se seguiu ao anúncio da moratória unilateral da Dubai World, empresa controlada pelo governo do emirado, que não tem como pagar US$ 59 bilhões. Como as finanças do mundo árabe não primam pela transparência, o mercado temeu durante dois dias que estivesse diante da ponta de um iceberg e que a exposição de grandes bancos europeus a esse novo rombo fosse suficiente para provocar o contágio. Mas não importa aqui o tamanho do estrago que a provável quebra de Dubai possa provocar. Importa é verificar como o mercado reage quando o chão ameaça desaparecer sob os pés.

Ao longo deste ano, o ouro se transformou em ativo atraente para os que nutriram crescente desconfiança sobre a saúde do dólar. Entre os agentes de peso que procuraram se defender contra a perda de substância da moeda americana estão importantes bancos centrais, que se puseram a diversificar suas reservas antes mais densamente repousadas sobre os ativos amarrados ao dólar. Parte dos recursos foi aplicada em ouro - ao menos essa é a suspeita de um bom número de analistas do mercado.

Ao lado dos ativos de países emergentes e das commodities, o ouro também passou a ser objeto de especulação financeira. Parte dos atuais detentores de recursos originários da massa de US$ 10 trilhões despendidos pelos Tesouros e bancos centrais dos países ricos para combater a crise e que agora zanzam pelos mercados recorreu ao ouro e a um bom número de commodities.

É isso que explica a valorização desse metal em 33% ao longo de 2009 (até o fechamento de sexta-feira), movimento que aparentemente vai continuar.

O comportamento do mercado nesses dois últimos dias mostra pelo menos duas coisas. Primeiramente, que o ouro já não é o metal do medo, nas condições em que foi até recentemente percebido, ao qual os detentores de riqueza recorriam sempre que um perigo relevante surgia. Há um bom tempo, ele está sendo considerado mais um ativo de risco, como as ações, do que um porto seguro nos momentos de turbulência.

Em segundo lugar, apesar de tudo o que acontece com as finanças públicas dos Estados Unidos e apesar da fragilidade da economia americana, sempre que um fator qualquer aciona movimentos de aversão ao risco, é ainda no dólar que os administradores de ativos procuram refúgio.

É um fato que desmente tantos analistas que há anos, e mais especialmente ao longo desta crise, preveem o derretimento próximo do que é, desde os anos 70, o quase único ativo de reserva de valor disponível no mundo.

Em outras palavras, ainda não apareceu nada melhor para substituir o dólar na função de reserva internacional de valor.

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