Ameaça fantasma

Enquanto caminhávamos para um novo New Deal, aconteceu uma coisa engraçada. Um ano atrás, a única coisa de que devíamos ter medo era o próprio medo; hoje, a doutrina que predomina em Washington é: "Tenha medo. Tenha muito medo".

Paul Krugman*, THE NEW YORK TIMES, O Estadao de S.Paulo

24 de novembro de 2009 | 00h00

O que aconteceu? Os "centristas" do Senado frustraram os esforços para recuperar a economia. Mas as evidências sugerem que, além de enfrentar a oposição, o presidente Barack Obama e seu círculo próximo se sentiram intimidados pelas histórias de horror de Wall Street.

Basta ver o contraste entre o que os assessores de Obama diziam às vésperas de sua posse, e o que ele mesmo afirma agora.

Em dezembro de 2008, Lawrence Summers, que em seguida se tornaria o economista de mais alto escalão do governo, pediu uma ação decisiva.

"Muitos especialistas", alertou, "acreditam que o desemprego poderá chegar a 10% até o fim de 2009". Diante de tal perspectiva, "fazer muito pouco constitui ameaça maior do que fazer demais". Dez meses depois, o desemprego chegou a 10,2%, o que sugere que, apesar de sua advertência, o governo não fez o suficiente para criar empregos. Devíamos esperar então que se sentisse determinado a fazer mais.

Mas, em recente entrevista à Fox News, o presidente pareceu desconfiado e nervoso ao conversar sobre a política econômica. Ele falou vagamente de possíveis incentivos fiscais para criação de postos de trabalho. E prosseguiu: "Entretanto, é importante reconhecer que, se continuarmos aumentando o nosso endividamento, mesmo nos encontrando em plena recuperação, a certa altura as pessoas poderão perder a confiança na economia americana de tal forma que poderá ocorrer uma recessão de dois dígitos".

O quê? A maioria dos economistas com quem conversei aparentemente crê que o maior risco para a recuperação é a inadequação dos esforços do governo: o estímulo foi insuficiente e desaparecerá no próximo ano, porque o alto desemprego está minando a confiança do consumidor e das empresas.

Agora, é politicamente difícil para o governo criar um segundo estímulo abrangente. No entanto, ele deveria pressionar para conseguir a maior ajuda possível à economia. Aliás, devemos lembrar que Obama tem o poder para isso; sua função é convencer os EUA a fazer o que tem de ser feito.

No entanto, o presidente está mostrando que sua opinião coincide com a dos que afirmam que não temos condições de criar empregos. Por outro lado, um relatório no site politico.com indica que o tema central do seu primeiro discurso sobre o Estado da Nação será a redução do déficit. O que ocorreu? Levei um bocado de tempo para desvendar o mistério. Mas será mais fácil compreender os temores de Obama se partirmos do pressuposto de que, direta ou indiretamente, é Wall Street que influencia as posições do presidente.

Desde o início da Grande Recessão, os analistas econômicos de algumas (não todas) companhias de Wall Street alertam que os esforços para combater a crise produzirão problemas ainda piores para a economia. Em especial, afirmam, independentemente da capacidade do governo de obter empréstimos de longo prazo e a taxas de juros relativamente baixas - a qualquer momento, os déficits do orçamento provocarão a perda total da confiança dos investidores e a disparada da taxa de juros.

E é a essa última questão que Obama se referiu na entrevista à Fox News. Sua preocupação se justificará? Picos das taxas de juros de longo prazo já ocorreram no passado, como em 1994. Mas em 1994 a economia americana criava mensalmente 300 mil empregos, e o Fed elevava as taxas de curto prazo. É difícil perceber o motivo pelo qual agora poderia acontecer algo parecido, enquanto a economia continua perdendo empregos sem parar e o Fed não mostra nenhuma vontade de elevar as taxas. É bastante possível que as autoridades estejam aterrorizadas pela ameaça de um fantasma - ameaça que existe apenas em suas mentes.

Qual a fonte da ameaça? Pelo que eu posso afirmar, os analistas que agora advertem que as taxas de juros aumentam sem parar são os mesmos que insistiam, meses depois do início da Grande Recessão, que a maior ameaça era a inflação. E não devemos esquecer que Wall Street - que de certo modo não reconheceu a maior bolha da habitação da história - não chega a ter um histórico confiável de previsão do comportamento do mercado.

No entanto, admitimos que existe certo risco de que, trabalhando mais para sanar um desemprego de dois dígitos, minaremos a confiança das bolsas. Esse risco precisa ser considerado em relação à certeza de que o sofrimento será grande se não fizermos mais - e a possibilidade, como eu disse, de um colapso da confiança entre trabalhadores e empresas.

Summers estava certo pela primeira vez: Diante da maior catástrofe econômica desde a Grande Depressão, é muito mais arriscado não fazer o suficiente do que fazer demais. É uma tristeza dar-nos conta de que o governo aparentemente perdeu de vista essa verdade.

* O autor é Prêmio Nobel de Economia

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