'Ameaças levam professor ao esgotamento'

Especialista, que atende docentes com estresse pós-traumático, diz que não há vida saudável com violência e sofrimento

Entrevista com

RIO, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2011 | 03h05

Vera Lemgruber, chefe do setor de Psicoterapia da Santa Casa de Misericórdia, abriu as portas para o tratamento gratuito de uma professora. E no rastro vieram outras oito, com os mesmos sintomas.

Metade delas foi diagnosticada com síndrome do estresse pós-traumático. As outras tinham depressão ou sofriam de estresse agudo.

Nesta entrevista ao Estado, a especialista ajuda a entender a doença, motivada por episódios ameaçadores e composta de três aspectos diferentes: revivência da ameaça, reação semelhante a um ataque de pânico e retração social.

O que provoca a síndrome do estresse pós-traumático?

O fator estressante tem de ser considerado muito grave para a maioria dos seres humanos. Essas reações ocorrem depois de guerras, estupros, ocorrências de violência doméstica, assaltos, sequestros ou qualquer episódio de agressão em que você se sinta ameaçado.

Como a síndrome do estresse pós-traumático se manifesta?

A reação do paciente envolve três aspectos. O primeiro é o flashback. A pessoa revive a ameaça, como se ela estivesse acontecendo de novo. É o caso de um ex-combatente de guerra que revive a batalha ao ouvir um estrondo qualquer.

O segundo é uma reação muito forte do sistema nervoso, que provoca uma descarga de adrenalina e também elevação de batimentos cardíacos, tremores, sensação de desmaio. É como se a pessoa estivesse tendo um ataque de pânico.

E o terceiro é o ensimesmamento, a pessoa se retrai socialmente.

Uma pessoa pode passar por essas situações de ameaça à vida e conseguir não desenvolver a síndrome do estresse pós-traumático?

Pode. A probabilidade de desenvolver a síndrome do estresse pós-traumático é pequena, de apenas uns 5%.

O ser humano tem uma capacidade de adaptabilidade darwiniana. Nós somos bichos. É a lei da sobrevivência.

O que determina se uma pessoa vai ter ou não a síndrome do estresse pós-traumático é a vulnerabilidade pessoal, que pode ser genética ou da própria experiência de vida. O tratamento é terapia e medicação.

Por que estas professoras

desenvolveram a síndrome do estresse pós-traumático?

As condições na escola não são favoráveis. Elas sofrem com um estresse muito grande. Mas o mais comum é desenvolverem o burnout, uma reação de esgotamento agudo. Algumas profissionais são mais sensíveis a isso. São anos de sofrimento.

É como o jovem que trabalha no mercado financeiro. Ele vive estressado, mas tem recompensa financeira. Enquanto o professor não tem dinheiro, não tem formas de compensações, como viajar nas férias.

O Estado poderia minimizar o sofrimento. Não é só dinheiro que compensa o estresse. Se elas tivessem respeito e reconhecimento da sociedade, se os colégios fossem mais decentes, elas ficariam melhores. Mas vai chegando a um ponto em que fica tudo insuportável. E aí elas adoecem. / MÁRCIA VIEIRA

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.