Amendoim: excelente potencial para biodiesel

Ele rende 50% de óleo, mas é pouco lembrado no setor bioenergético. A não ser pela pesquisa, que busca cultivares propícias

Leandro Costa, O Estado de S.Paulo

03 de março de 2010 | 02h47

Da soja, pode-se extrair 20% de óleo para fabricação de biodiesel. Do amendoim, algumas variedades produzem até 50% de óleo para a mesma finalidade. A diferença é que, hoje, a soja é o principal vegetal utilizado no País para fabricação de biodiesel. O amendoim, por sua vez, continua de escanteio comercialmente, quando o assunto é bioenergia.

Para alguns pesquisadores, porém, o amendoim tem potencial para desbancar a soja. O agrônomo da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (Cati), Dilson Cáceres, especialista em oleaginosas, diz que "quando o mercado deixar de focar o volume de produção e se voltar para a qualidade, o óleo de amendoim poderá ser uma das principais fontes de biodiesel".

Ainda falta um longo caminho até que o amendoim alcance este status. Primeiro porque as áreas de cultivo são pequenas e limitam-se praticamente a São Paulo, que concentra 90% das lavouras da oleaginosa, cultivada em regime de rotação com a cana-de-açúcar.

Segundo, porque a maior parte da produção é destinada ao setor de confeitaria, o que diminui ainda mais o volume de matéria-prima destinado ao óleo, que atualmente também vai para fins culinários.

Um dos caminhos para tornar o amendoim a principal fonte de biodiesel no Brasil é investir no melhoramento genético, defende o pesquisador Ignácio José de Godoy, do Instituto Agronômico (IAC-Apta). Segundo ele, o alto custo de produção do óleo de amendoim não estimula as empresas a produzir biodiesel, já que o que se paga pelo combustível é menos do que pelo óleo puro, com alto valor agregado.

 

PREÇOS MELHORES - Segundo o produtor José Nilton dos Santos, de Paraguaçu Paulista (SP), saca está cotada a R$ 20, ante R$ 14 na safra passada

PONTO CRÍTICO

"O custo de produção é alto, de R$ 2.200 por hectare, o que torna inviável um projeto exclusivo para biodiesel", diz. A estratégia, para ele, é investir no desenvolvimento de variedades com alto teor de óleo e resistentes a pragas e doenças. Segundo Godoy, este ponto é crítico, porque no amendoim os gastos com defensivos representam 25% do custo de produção.

Para o pesquisador, o desenvolvimento de variedades resistentes e produtivas tanto em óleo quanto por hectare pode estimular o surgimento de um sistema de produção dirigido especificamente para o setor energético, o que hoje não ocorre. "Atualmente o que abastece as empresas produtoras de óleo é o amendoim descartado nas empresas de confeitaria."

No ano passado, o IAC-Apta lançou o IAC caiapó, variedade de amendoim resistente a múltiplas doenças e que possui cerca de 50% de óleo na semente.

Segundo Godoy, a cultivar, de porte rasteiro, já despertou o interesse da indústria de óleo, que está testando seu cultivo fora do Estado. É o caso da Brumau Comércio de Óleos Vegetais, uma das maiores esmagadoras de amendoim do Brasil. A empresa plantou recentemente 1.250 hectares no Estado do Tocantins. Conforme com o gerente de Desenvolvimento da Brumal, Claudio Rocha, o objetivo da empresa é, no médio prazo, entrar definitivamente no mercado de biodiesel (hoje o foco da empresa é a exportação de óleo comestível). "Mas, para tanto, é preciso tornar viável o plantio em larga escala",diz Rocha. O próximo passo é calcular a redução de custos com o plantio da variedade melhorada, "questão vital para o cultivo em larga escala".

MAIS UMA

Godoy adianta que o IAC-Apta está desenvolvendo outra variedade, chamada de IAC 505. "A expectativa é lançá-la até o fim do ano. Assim como a IAC caiapó, essa variedade tem alto teor de óleo, 49%, e resiste bem a doenças."

A Embrapa é outra entidade que tem investido no melhoramento genético do amendoim voltado à produção de biodiesel. Desde 2005 a empresa formou uma frente de pesquisa em biodiesel que busca desenvolver variedades propícias para o semiárido brasileiro, diz a responsável pelo programa, Roseane Cavalcante dos Santos. Ela diz que já existe uma variedade sendo testada em Petrolina (PE) e no Rio Grande do Norte: o amendoim branco, que recebeu esse nome por causa da cor clara da casca da semente. "A próxima fase é a divulgação e o incentivo ao plantio", diz Roseane. Segundo ela, a variedade possui 50% de óleo e suas características fazem com que não concorra com as cultivares utilizadas no setor alimentício.

COM BIODIESEL NO DNA

IAC caiapó - Desenvolvido pelo IAC-Apta, cultivar apresenta alto nível de resistência a pragas e doenças e alto teor de óleo na semente (50%). Variedade também se destaca pela alta concentração de ácido oleico.

IAC 505 - Ainda em fase de

testes, cultivar possui 49% de óleo em sua semente e também tem alta concentração de ácido oleico. Por suas características, é cotada para produção

de biodiesel.

Amendoim branco - Desenvolvida pela Embrapa para a região semiárida, a cultivar de casca branca possui 50% de concentração de óleo na semente e seu ponto forte é não concorrer com variedades comestíveis.

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