Americanos entram no conclave como 'fiéis da balança'

Grupo é o maior depois dos italianos e se votar de forma unânime pode dar a Angelo Scola uma força decisiva

O Estado de S.Paulo

12 de março de 2013 | 02h02

CIDADE DO VATICANO - Com o segundo maior grupo de eleitores depois dos italianos, os cardeais dos EUA entram para o conclave como uma espécie de fiel da balança. Nos últimos dias, os religiosos americanos criaram uma saia-justa para o Vaticano ao darem sinais de que querem maior transparência na Santa Sé, atraindo o apoio de grupos contrários ao atual comando da Igreja, liderado pelo secretário de Estado, Tarcisio Bertone.

Se optarem, de forma unânime, em apoiar Angelo Scola, a candidatura do italiano poderia ganhar uma força decisiva. Mas não se descarta até mesmo que um americano apareça como um dos nomes na primeira eleição.

Para John Allen, conceituado vaticanista, essa forte presença americana não ocorre por acaso. Um dos escândalos envolvendo o vazamento de informações do Vaticano aponta como o monsenhor Carlo Maria Vigano entrou em confronto direto com Bertone. Ele havia sido escolhido por Bento XVI para "limpar" as finanças da Santa Sé, incluindo o Banco do Vaticano. Mas, depois de fazer sérias denúncias de irregularidades na administração, foi "premiado" por Bertone com sua remoção para a Nunciatura Apostólica nos EUA. Na prática, uma demissão que evitou que ele fosse nomeado cardeal. Vigano chegou aos EUA em novembro de 2011 com a missão espinhosa de tratar das indenizações bilionárias por causa dos casos de pedofilia na Igreja americana.

Na visão de Allen, não há dúvidas de que os cardeais americanos pressionaram por transparência com base nos contatos que tiveram por meses com Vigano. "Certamente esse cardeais já estavam convencidos de que algumas coisas precisavam mudar", disse ao Estado.

Fontes na delegação americana confirmaram que os cardeais dos EUA têm "amplo respeito e admiração" por Vigano. Em outras palavras, apoiaram o trabalho do desafeto de Bertone. Uma das opções que se discute é o apoio unânime de todos os americanos à candidatura de Scola, visto como alguém de oposição a Bertone e disposto a seguir a linha de uma maior limpeza na Igreja.

Mas, nos últimos dias, ganhou força a ideia de que o grupo americano apresente o próprio candidato, já que Scola não seria exatamente a mudança que os cardeais dos EUA esperariam. Não se esconde em Roma que a cidade poderá receber a visita do presidente Barack Obama para a cerimônia de posse do novo papa.

O problema é que o surgimento de mais um nome de "oposição" - como Thimoty Dolan - dividiria os votos e daria mais chance para que o nome da situação - como d. Odilo Scherer - avance.

Superpotência. Thomas Reese, padre americano e vaticanista, não vê um candidato americano tendo chances de ser eleito. "A história sempre mostrou que o Vaticano evitou ter como papa alguém da superpotência do mundo", explicou. "Isso ocorreu quando Roma era o império, ocorreu quando França mandava na Europa e agora com os EUA", disse ao Estado.

Para ele, haveria mais riscos que benefícios em ter um papa americano. "A escolha de um papa americano traria muitos problemas na relação tanto dos EUA com o mundo como na relação do Vaticano com o Oriente Médio e Ásia", disse. "Não demoraria para grupos radicais islâmicos acusarem a CIA de ter eleito o papa."

O cardeal americano William Levada também acha difícil um papa americano ser eleito, por conta da política de Washington no mundo. / J.C.

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