Amorim adota tom mais conformista

Chanceler diz que é hora de pensar em paz na região e nos próximos passos do Itamaraty em relação a Honduras

Jamil Chade, O Estadao de S.Paulo

28 de novembro de 2009 | 00h00

O ministro brasileiro das Relações Exteriores, Celso Amorim, adotou ontem um discurso mais conformista com relação às eleições presidenciais em Honduras. Amorim, que chegou ontem a Genebra, na Suíça, insistiu que o Brasil não reconhecerá as eleições que se realizam hoje no país centro-americano, mas admitiu que terá de conviver com a nova realidade e disse que é hora de colocar um ponto final na situação.

"Vamos desejar um futuro de paz para Honduras", disse o chanceler brasileiro, que alertou que a situação na América Latina ficará "muito complexa" diante dos acontecimentos. Amorim também criticou os EUA e insinuou que o governo de Barack Obama não foi coerente em relação à crise política hondurenha.

O chanceler brasileiro está na Suíça para participar da reunião ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC), que começa amanhã em Genebra. Questionado se o Brasil aceitaria o exílio do presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, o chanceler foi lacônico: "Ele vai para onde quiser".

Amorim destacou que a posição do Brasil não mudou: o País não pretende reconhecer o candidato vitorioso nas eleições presidenciais de hoje.

"Estas eleições, para nós, não têm validade. Seja qual for o resultado, não vamos reconhecer o vencedor. Seria uma incoerência", disse. "Estamos em uma situação em que a grande preocupação é a legitimação de um golpe de Estado, coisa que não podemos aceitar."

Apesar das críticas públicas ao processo eleitoral hondurenho, Amorim afirmou que a prioridade do Brasil agora deve ser pensar no futuro da região. O chanceler, no entanto, deixou transparecer que o Itamaraty não sabe ao certo qual será o próximo passo.

"De agora em diante, teremos uma situação muito complexa na América Latina e lamentamos que tenhamos chegado a esse ponto. Teremos de ver o que faremos no futuro", disse o chanceler.

O ministro insistiu que a situação em Honduras não se trata de um enfrentamento entre o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente americano. No entanto, ele não poupou críticas ao comportamento da Casa Branca, que chegou a condenar o golpe, nos primeiros meses, e agora afirma que reconhecerá o vencedor das eleições.

"Por razões que não me cabe julgar, eles (os americanos) não tiveram condições de fazer aquilo que seria coerente com a própria atitude que eles tomaram, que foi a de condenar o golpe", declarou Amorim. "Mas a vida é assim. Não estamos em um enfrentamento (com os EUA). O que podemos é discordar e lamentar."

De acordo com a avaliação do chanceler brasileiro, o Brasil tomou a decisão certa ao abrigar Zelaya na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, mesmo diante dos protestos do governo de facto hondurenho, liderado por Roberto Micheletti.

"Fizemos a coisa certa. Nós ajudamos a criar condições de diálogo, o que não existia antes. Esse diálogo foi mantido e chegamos a ter esperanças de que ele pudesse dar um resultado positivo", disse Amorim. "Isso não ocorreu, pelo menos não da maneira que gostaríamos. No entanto, achamos que era a única coisa certa a fazer."

GOLPE

Antes de chegar a Genebra, Amorim havia criticado duramente as eleições em Honduras. O chanceler disse que "não é um bom sinal" que a votação seja realizada sob um governo de facto. "O fato de haver eleições conduzidas por um governo que saiu de um golpe depois de um longo período de estado de sítio não é um bom sinal para a região", disse.

Segundo Amorim, a saída encontrada para a crise hondurenha representa um enfraquecimento da Organização dos Estados Americanos (OEA), cuja maioria dos países-membros condenou a destituição de Zelaya.

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