Analfabetos políticos

Os de Brecht apenas se orgulhavam da própria ignorância; os atuais entendem até de Marco Civil

Jean Wyllys,

29 Março 2014 | 16h00

O dramaturgo Bertolt Brecht afirmou, num texto memorável, que "o pior analfabeto é o analfabeto político". Concordo com essa afirmação desde o momento em que a conheci, já consciente de que eu era um "animal político", para citar a expressão de Aristóteles. Porém, porque os tempos eram outros (e, naqueles tempos, o dramaturgo alemão nem sequer sonhava com as transformações sociais, culturais e tecnológicas de que somos testemunhas, promotores e produtos), Brecht definia o "analfabeto político" como aquele que "não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos"; aquele que "é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política". Dessa definição brechtiana de analfabeto político, a única característica que sobrevive nos dias atuais é o proclamado e contraditório ódio à política. De resto (e por causa das transformações sociais, culturais e tecnológicas que experimentamos), o analfabeto político dos dias atuais é bem diferente daquele dos tempos de Brecht.

O analfabeto político da atualidade fala e participa dos acontecimentos políticos; ou melhor, mesmo sem se aprofundar nos acontecimentos em questão; mesmo renunciando à tarefa de se informar melhor sobre eles; mesmo partindo de preconceitos, boatos ou mentiras descaradas sobre os tais acontecimentos, o analfabeto político da contemporaneidade - ao contrário daquele dos tempos de Brecht - participa dos acontecimentos políticos "opinando" sobre eles nas redes sociais digitais. Eu poderia recorrer a muitos exemplos do atual comportamento do analfabeto político, mas vou me restringir aos que se relacionam com a aprovação do Marco Civil da Internet, legislação que tem, por objetivo, assegurar a liberdade, a privacidade e a neutralidade nos acessos a - e compartilhamentos de - dados e informações digitais, uma vez que essas estão ameaçadas por conflitos de interesses que envolvem usuários/consumidores, governo e corporações de telecomunicações. Ora, é mais que óbvio que, sem parâmetros estabelecidos por lei, conflitos não podem ser arbitrados nem solucionados, logo, uma legislação para internet era mais que necessária.

A aprovação do Marco Civil levou a minha página no Facebook centenas de "analfabetos políticos" que fizeram comentários constrangedores sobre esse acontecimento, dos quais destaco alguns: "O marco servil vai acaba com o facebook e traze o comunismo vai manda mata todo mundo começando por você seu viado filhodaputa"; "Intervenção Militar já! O que vivemos no país hoje é a mesma situação de uma ditadura, se você é contra o governo na internet, derrubam seu site, seu blog, seu vlog, seu canal no youtube e por ai vai"; "Um dos últimos passos do Comunismo é retirar a liberdade de expressão. Com o Marco Civil, vão caçar qualquer opositor ao governo com extrema facilidade. Nos desarmaram, nos tiraram o direito de educar os filhos, e agora vão calar nossas vozes. Quem puder ir embora do Brasil, vá. Porque depois das eleições esse país vai ser um massacre, vão tingir a bandeira de vermelho. LITERALMENTE!"; "Internet livre e marco regulatório? Controlar a liberdade? A internet deve estar ofendendo alguém ou incomodando a liberdade exagerada"; "Governo tem o direito a partir de agora, e por decreto, de fechar um portal de notícias caso tenha críticas ao governo por exemplo"; "TNC no mano!! e o meu porno? como e que fica! -.- nunca brinque com a punheta mano, nunca faça isso!".

Esses comentários são exemplos do analfabetismo político contemporâneo, mas são também o sintoma de uma ameaça ao debate público pautado na honestidade intelectual e no respeito ao conhecimento: a maioria dos "analfabetos políticos" que vociferaram em minha página, principalmente a maioria daqueles que fizeram menção ao "comunismo" ou ao "socialismo", deixou claro quais as fontes de suas afirmações acerca do Marco Civil da Internet: revistas reacionárias; o senil que se diz "filósofo"; e a família de parlamentares (deputado federal, deputado estadual e vereador) que parasita o poder público para difamar adversários e estimular o fascismo. É preocupante que uma parcela cada vez mais expressiva da população seja transformada em analfabeta política por causa desses reacionários!

O Marco Civil da Internet é uma legislação ainda com algumas lacunas, como o artigo 16, que compromete a privacidade do internauta ao obrigar que empresas guardem dados de navegação por seis meses ou mais e dá o direito de qualquer agente do Estado de exigir esses dados mediante mera decisão judicial. Logo, é passível de críticas, mas críticas honestas (não pode haver dúvida quanto a sua necessidade, por exemplo). Essas lacunas podem ser preenchidas no Senado, onde o Marco Civil será agora votado. Nesse sentido e apesar da virulência e arrogância com que afirma sua ignorância, o analfabeto político é uma vítima daquele que Brecht considera "o pior de todos os bandidos": o político vigarista, desonesto intelectualmente, corrupto e lacaio das grandes corporações. Portanto, é preciso ter compaixão pelo analfabeto político: insistir na luta para que ele tenha acesso a educação de qualidade e às artes, em especial as artes vivas, com destaque para o teatro (terreno de Brecht). Só a educação de qualidade e as artes podem construir a vida com pensamento que erradicará o analfabetismo político (extensão dos analfabetismos funcional e digital).

JEAN WYLLYS É JORNALISTA E DEPUTADO FEDERAL (PSOL-RJ)

Mais conteúdo sobre:
Aliás

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.